Um Francês e Suas Impressões sobre o Brasil

Certa vez, alguém me passou o link de um blog escrito por um francês chamado (O outro) diário do Olivier  e tinha lá um post intitulado “Curiosidades Brasileiras(o único post do blog, por sinal) que me rendeu boas risadas. Achei que valeria a pena compartilhar o texto aqui com vocês, mas é claro que eu quero dar minha opinião em cada uma das observações feitas pelo sujeito.  Quem quiser ler o texto sem meus comentários, é só clicar nos links acima. O que está em negrito foi escrito por ele e eu copiei exatamente como ele escreveu, não corrigi nenhum erro.

___________________________________

Aqui são umas das minhas observações, as vezes um pouco exageradas, sobre o Brasil. Nada serio.

Aqui no Brasil, tudo se organiza em fila: fila para pagar, fila para pedir, fila para entrar, fila para sair e fila para esperar a próxima fila. E duas pessoas já bastam para constituir uma fila.

Fila é vida, meu caro! Até hoje meu marido fica maravilhado ao ver pessoas respeitando filas, porque lá no país dele, eles nem sabem o que isso significa. Certa vez, eu estava aguardando minha vez para comprar um ingresso em uma fila exclusiva para mulheres, que mais parecida um amontado de mulheres lutando para conseguir chegar ao guichê, e não é que um sujeito, na maior cara de pau, simplesmente se atravessou em minha frente, bem na minha vez, porque a fila dos homens não estava andando? Fiquei louca da vida. Só dá valor a uma fila quem nunca teve ou experimentou uma situação caótica.

Aqui no Brasil, o ano começa “depois do Carnaval”

Mito ou verdade? Pode ser que seja verdade para muita gente, mas definitivamente não para mim, meu ano começa assim que termina meu recesso de fim de ano, ou seja, logo nos primeiros dias de janeiro.

Aqui no Brasil, não se pode tocar a comida com as mãos. No Mc Donalds, hamburguer se come dentro de um guardanapo. Toda mesa de bar, restaurante ou lanchonete tem um distribuidor de guardanapos e de palitos. Mas esses guardanapos são quase de plastico, nada de suave ou agradável. O objetivo não é de limpar suas mãos ou sua boca mas é de pegar a comida com as mãos sem deixar papel nem na comida nem nas mãos.

E frango frito se come como? E a batatinha frita? Achei a observação interessante. Até meu marido, que vem de uma cultura em que comer com a mão é a regra, aqui usa guardanapo fora de casa para quase tudo, inclusive no McDonald’s. Não acho que seja simplesmente uma regra de etiqueta, mas sim para não ficar com as mãos engorduradas, especialmente com frituras. Até que eu não uso tanto guardanapo, em especial se tiver apenas aqueles que não limpam nada, que mais parecem que só engorduram as mãos ainda mais, mas conheço muita gente que não vive sem guardanapo de jeito nenhum. Palito de dente eu acho uó! Devia ser extinto do planeta!

Aqui no Brasil todo é gay (ou ‘viado’). Beber chá: e gay. Pedir um coca zero: é gay. Jogar vólei: é gay. Beber vinho: é gay. Não gostar de futebol: é gay. Ser francês: é gay, ser gaúcho: gay, ser mineiro: gay. Prestar atenção em como se vestir: é gay. Não falar que algo e gay : também é gay.

Moro em uma região em que se fala muito em “coisas de macho”, mas não posso negar que qualquer coisinha pode ser classificada como uma coisa gay. Gaúcho com fama de gay, especialmente se for de Pelotas, é um clássico tupiniquim, mas mineiro é novidade para mim! De qualquer forma, acho mesmo que brasileiro é campeão no quesito tentar se auto-afirmar como um cabra muito macho. O mundo masculino, para eles, é dividido em dois, o mundo dos machos muito machos e o mundo das bibas. Coitado de quem gosta de Coca Zero e chá, tipo meu marido!

Aqui no Brasil, os homens não sabem fazer nada das tarefas do dia a dia: não sabem faxinar, nem usar uma maquina de lavar. Não sabem cozinhar, nem a nível de sobrevivência: fazer arroz ou massa. Não podem consertar um botão de camisa. Também não sabem coisas que estão consideradas fora como extremamente masculinas como trocar uma roda de carro. Fui realmente criado em outro mundo…

É verdade, em geral os homens brasileiros não costumam ajudar nas tarefas domésticas desde pequenos, por incentivo de seus próprios pais. Muitos ainda acompanham esse pensamento ultrapassado de que apenas as mulheres devem realizar as tarefas do lar. Eu mesma cresci em uma família assim. Ainda bem que meu marido é multiuso, sabe cozinhar, lavar louça e roupas (mas é um saco de preguiça). Mas em relação à troca do pneu do carro, não concordo com ele, pois não conheço nenhum homem que não saiba, afinal, carros e afins é “coisa de macho, muito macho”.

Aqui no Brasil, sinais exteriores de riqueza são muito comuns: carros importados, restaurantes caríssimos em bairros chiques, clubes seletivos cujos cotas atingem valores estratosféricas.

Sem dúvida. E mostrar uma riqueza que a pessoa não tem é ainda mais comum. Gente que se afunda em contas, passa necessidade em casa, mora praticamente em um barraco, mas que tem carro do ano e importado é o que mais tem. Aqui no Brasil dizemos que gente assim come ovo e arrota caviar.

Aqui no Brasil, os casais sentam um do lado do outro nos bares e restaurantes como se eles estivessem dentro de um carro.

Óin, adoro sentar do ladinho de meu marido em qualquer lugar

Aqui no Brasil, os homens se vestem mal em geral ou seja não ligam. Sapatos para correr se usam no dia a dia, sair de short, chinelos e camisetas qualquer e comum. Comum também é sair de roupas de esportes mas sem a intenção de praticar esporte. Se vestir bem também é meio gay

Desculpem-me os brasileiros leitores do blog, mas é verdade, de maneira geral o homem brasileiro não é lá muito chegado a vestir-se bem. Eles se vestem feito adolescentes quase em tempo integral: jeans, moletom, tênis, camiseta, bermuda estilo surfista. Meu marido, que sempre usou camisa, aos pouquinhos está aderindo à “modinha”.

Aqui no Brasil, o cliente não pede cerveja pro garção, o garção traz a cerveja de qualquer jeito.

Que exagero! Tudo bem que, dentre as bebidas alcoólicas, a cerveja é uma preferência nacional, mas aí também já é demais! Também pode ser porque cerveja é das bebidas mais baratas se comparada aos destilados da vida. Um copinho de caipirinha custa em torno de 15 reais, e a garrafa de cerveja? Bem mais em conta. Garção é bão!

Aqui no Brasil, todo mundo torce para um time, de perto ou de longe.

Futebol, uma paixão nacional, até mulheres gostam, mas certamente não é uma paixão minha, nem de perto e nem de longe! E meu marido detesta o futebol sul-americano, prefere o europeu. Aliás, futebol não é a praia dele, mas ele decidiu começar a jogar uma vez por semana para mexer o corpinho e conhecer pessoas. Era um perna de pau no início, mas agora até já faz gols (no momento nem joga mais).

Aqui no Brasil, sempre tem um padre falando na televisão ou na radio.

Ah, sim, certamente. Em torno de 87% da população é cristã, mas eu vejo mais pastor na TV do que qualquer outra coisa. Na verdade, há anos que não assisto tv.

Aqui no Brasil, a vida vai devagar. E normal estar preso no transito o dia todo. Mas não durma no semáforo não. Ai tem que ser rápido e sair ate antes do semáforo passar no verde. Não depende se tiver muitas pessoas atrás, nem se estiverem atrasados. Também é normal ficar 10 minutos na fila do supermercado embora que tenha só uma pessoa na sua frente. Ai demora para passar os artigos, e muitas vezes a pessoa da caixa tem que digitar os códigos de barra na mão ou pedir ajuda para outro funcionário para achar o preço de um artigo. Mas, na hora de retirar o cartão de credito, ai tem que ser rápido. Não é brincadeira, se não retirar o cartão na hora, a mesma moça da caixa que tomou 10 minutos para 10 artigos vai falar agressivamente para você agilizar: “pode retirar o cartão!”

Realmente, o trânsito está cada vez pior e o povo cada vez mais enlouquecido para comprar carro. Na primeira oportunidade, já se afundam em financiamento para comprar um carrinho popular, ou seja, a tendência é piorar ainda mais. Enquanto isso, nos países desenvolvidos, o povo está aderindo cada vez mais aos transportes públicos. Esse é o nosso Brasil, sempre na contramão!

Aqui no Brasil, os chineses são japoneses.

Ou os japoneses são chineses? E os coreanos? Ninguém sabe quem é quem, é difícil identificar.

Aqui no Brasil, a política não funciona só na dimensão esquerda – direita. Brasil é um pais de esquerda em vários aspectos e de direita em outros. Por exemplo, se pode perder seu emprego de um dia pra outro quase sem aviso. Tem uma diferencia enorme entre os pobres e os ricos. Ganhar vinte vezes o salario minimo é bastante comum, e ganhar o salario minimo ainda mais. As crianças de classe media ou alta estudam quase todos em escolas particulares, as igrejas tem um impacto muito importante sobre decisões politicas. E de outro lado, existe um sistema de saúde publico, o estado tem muitas empresas, tem muitos funcionários públicos, tem bastante ajuda para erradicar a pobreza em regiões menos desenvolvidas do país. O mesmo governo é uma mistura de política conservadora, liberal e socialista.

Ele está por fora, agora tudo se resume a esquerda mortadela e direta coxinha.

Aqui no Brasil, e comum de conhecer alguem, bater um papo, falar “a gente se vê, vamos combinar, ta?”, e nem trocar telefone.

É o clássico “Vamos combinar? Vamos” e fica tudo por isso mesmo! Quando alguém fala para meu marido “vamos combinar?”, ele logo responde “quando? amanhã?” e deixa a pessoa que perguntou com cara de bunda.

Aqui no Brasil, a palavra “aparecer” em geral significa, “não aparecer”. Exemplo: “Vou aparecer mais tarde” significa na pratica “não vou não”.

Eu discordo, significa que um dia vai aparecer, sim, não necessariamente amanhã ou depois! Um ano, quem sabe?

Aqui no Brasil, não falta espaço. Falam que o pais tem dimensões continentais. E é verdade, daria para caber a humanidade inteira no Brasil. Mas então se tiver tanto espaço, por que é que as garagens dos prédios são tão estreitos? Porque existe até o conceito de vaga presa?

Rapaz, garagem aqui é sinônimo de lucro, tem até gente que aluga e vende a dita! Tem gente que se estapeia por causa delas. Estacione seu carro por um minuto em uma vaga de garagem que não é sua para você ver o que acontece, corre-se um sério perigo.

Aqui no Brasil, comida salgada é muito salgada e comida dolce é muito doce. Ate comida é muita comida.

Será? Meu marido vive reclamando que falta sal nas comidas daqui! E os doces ele adora, quanto mais doce melhor! O negócio aqui é fartura mesmo e sempre achamos que franceses passam fome comendo aquele miserê de comida, é muito espetáculo para pouca comida.

Aqui no Brasil, se produz o melhor café do mundo e em grandes quantidades. Uma pena que em geral se prepare muito mal e cheio de açúcar.

Café cheio de açúcar é muito amor! Se for com leite, então, é uma explosão de amor! Originalmente, meu marido é fã de chá, mas aprendeu a tomar café preto puro.

Aqui no Brasil, praias bonitas não faltam. Porem, a maioria dos brasileiros viajam todos para as mesmas praias, Búzios, Porto de Galinhas, Jericoacoara, etc.

Há os destinos mais famosos, que por sua vez têm mais infra-estrutura para receber os turistas justamente por serem mais famosos e frequentados, mas nada a ver falar que viajamos todos para as mesmas praias, portanto, discordo dele. Aqui quem manda é o dinheiro, viaja-se até onde seu dinheiro possa te levar.

Aqui no Brasil, futebol é quase religião e cada time uma capela.

Nesse quesito sou ateia.

Aqui no Brasil, as pessoas acham que dirigir mal, ter transito, obras com atraso, corrupção, burocracia, falta de educação, são conceitos especificamente brasileiros. Mas nunca fui num pais onde as pessoas dirigem bem, onde nunca tem transito, onde as obras terminam na data prevista, onde corrupção é só uma teoria, onde não tem papelada para tudo e onde tudo mundo é bem educado!

Não adianta disfarçar, o Brasil é, sim, um país bastante atrasado e subdesenvolvido nesses aspectos.

Aqui no Brasil, esporte é ou academia ou futebol. Uma pena que só o futebol seja olímpico.

Nada a ver. Claro que há muitos esportes que não são nada populares no país, mas dizer que tudo se resume a academia e futebol é generalizar demais. Tudo bem que, em termos olímpicos, o Brasil quase sempre é uma decepção, mas há uma infinidade de esportes praticados por aqui que não somente academia e futebol. O povo adora corrida de rua, caminhada, passeio ciclístico, surf, entre muitos outros.

Aqui no Brasil, existe três padrões de tomadas. Vai entender porque…

Pois é, ele deve estar se referindo às tomadas antigas, aquelas que davam curto e pegavam fogo fácil, fácil. Muitas vezes, ao secar meu cabelo com um secador mais potente, vi a tomada derretendo ou saindo faísca, um perigo! Por isso eles acabaram mudando o padrão das tomadas. Mas isso não significa que todas elas foram trocadas em todos os lugares, e por isso ainda há as do padrão antigo convivendo harmoniosamente com as atuais. Em minha casa tem de tudo.

Aqui no Brasil, não se assuste se estiver convidado para uma festa de aniversário de dois anos de uma criança. Vai ter mais adultos do que crianças, e mais cerveja do que suco de laranja. Também não se assuste se parece mais com a coroação de um imperador romano do que como o aniversário de dois anos. E ‘normal’.

Sim, é normal ter muitos adultos, alguém tem que cuidar da fedelhama para não aprontarem demais e deixar a mãe do aniversariante louca. Ele esqueceu de mencionar que os aniversário infantis são super produções em que se gasta barris de dinheiro em uma festa que dura pouco mais de 5 horas. E raramente se vê suco de laranja, é Fanta, Coca e Guaraná mesmo que servem.

Aqui no Brasil, nõ tem o conceito de refeição com entrada, prato principal, queijo, e sobremesa separados. Em geral se faz um prato com tudo: verdura, carne, queijo, arroz e feijão. Dai sempre acaba comer uma mistura de todo.

Sim, neste quesito não somos muito refinados. Brasileiro gosta mesmo é de rodízio, buffet livre, comilança e orgia gastronômica.

Aqui no Brasil, se acha tudo tipo de nomes, e muitos nomes americanos abrasileirados: Gilson, Rickson, Denilson, Maicon, etc.

Além destas preciosidades americanizadas, brasileiro adora nomes bíblicos, nomes compostos e muito y.

Aqui no Brasil, quando comprar tem que negociar.

Depende do que se está comprando, as compras do dia a dia praticamente não permitem pechincha, tem lá seu descontinho mixuruco, mas isso é tudo. Talvez ele estivesse se referindo a compra de imóveis ou bens de maior valor.

Aqui no Brasil, os homens se abraçam muito. Mas não é só um abraço: se abraça, se toca os ombros, a barriga ou as costas. Mas nunca se beija. Isso também é gay.

Beija, sim, como não? Quando são bastante amigos ou parceiros, rola beijo, sim, mas bem menos meloso que o usual adotado por mulheres, porque afinal, muito grude não é “coisa de macho”.

Aqui no Brasil, o polegar erguido é sinal pra tudo : “Ta bom?”, “obrigado”, “desculpa”.

Sim, é bem isso mesmo! E são os homens que gostam mais de gastar seus polegares fazendo esses sinais do que as mulheres.

Aqui no Brasil, quando um filme passa na televisão, não passa uma vez só. Se perder pode ficar tranquilo que vai passar mais umas dez outras vezes nos próximos dias. Assim já vi “Hitch” umas quatro vezes sem querer assistir nenhuma.

Quando eles anunciam um filme inédito na televisão brasileira aberta, isso já é algo inédito por si só. E ele fala de Hitch porque nunca assistiu “A Lagoa Azul” na sessão da tarde, um clássico da televisão brasileira.

Aqui no Brasil, todo mundo gosta de pipoca e de cachorro quente. Não entendo.

Pipoca, cachorro quente, espetinho de gato, coxinha, churros, sonho, pamonha, tudo quentinho e na porta de sua casa.

Aqui no Brasil, as lojas, o negócios e os lugares sempre acham um jeito de se vender como o melhor. Já comi em em vários ‘melhor bufe da cidade’ na mesma cidade. Outro superativo de cara de pau é ‘o maior da América latina’. Não costa nada e ninguém vai ir conferir.

Parece-me que ele não entende nada de marketing barato.

Aqui no Brasil, tem uma relação ambígua e assimétrica com a América latina. A cultura do resto da América latina não entra no Brasil, mas a cultura brasileira se exporta la. Poucos são os brasileiros que conhecem artistas argentinos ou colombianos, poucos são os brasileiros que vão de ferias na América latina (a não ser Buenos Aires ou o Machu Pichu), mas eles em geral visitaram mais países europeus do que eu. O Brasil as vezes parece uma ilha gigante na América latina, embora que tenha uma fronteira com quase todos os outros países do continente.

Como é que a cultura da América Latina não entra aqui? Entra muito. O conceito de churrasco vem dos pampas (brasileiro, uruguaio e argentino), tem o fenômeno do portunhol, os imigrantes tocando aquelas flautinhas enlouquecidamente nas praças nos centros das grandes cidades, vendendo seus CDs, empanadas chilenas, argentinas, os montes de vinhos nos supermercados, o alfajor, aquelas toucas e casados de inverno cheio de desenhos característicos dos povos andinos, isso sem falar que se encontra brasileiro aos montes fazendo turismo em todos os países vizinhos, inclusive no Paraguay. Eu poderia ficar um bom tempo apenas falando sobre tudo aquilo que entra aqui.

Aqui no Brasil, relacionamentos são codificados e cada etapa tem um rótulo: peguete, ficante, namorada, noiva, esposa, (ex-mulher…). Amor com rótulos.

A sociedade gosta, a sociedade quer.

Aqui no Brasil, a comida é: arroz, feijão e mais alguma coisa.

Meu marido diz a mesma coisa. Ele está de saco cheio de arroz e feijão desde o primeiro mês no Brasil. Certa vez, encontrei uma francesa na Polícia Federal, e lá estava ela reclamando do nosso arroz com feijão. Não que eu seja fã da combinação, mas perguntei a ela o que os franceses comiam em seu dia a dia no final das contas. Ela disse que comem purê de batata e mais alguma coisa. Achei estranho, aliás, ela não falou coisa com coisa, mas fez questão de acabar com a raça do arroz com feijão.

Aqui no Brasil, o brasileiros acreditam pouco no Brasil. As coisas não podem funcionar totalmente ou dar certo, porque aqui, é assim, é Brasil. Tem um sentimento geral de inferioridade que é gritante. Principalmente a respeito dos Estados Unidos. To esperando o dia quando o Brasil vai abrir seus olhos.

É, brasileiro é, em sua maioria, paga pau dos Estados Unidos. Alguns até disfarçam e também há aqueles que adoram fazer discurso anticapitalista, leia-se aqui anti-americanismo. Aposto que comem no McDonald’s, têm carrinho da Ford e um celular da Apple.

Aqui no Brasil, de vez em quando no vocabulário aparece uma palavra francesa. Por exemplo ‘petit gâteau’. Mas para ser entendido, tem que falar essas palavras com o sotaque local. Faz sentido mas não deixa de ser esquisito.

Não só petit gâteau, mas também abajur, ballet, boutique, buffet, boite, champagne, chic, croissant, garçom, glacé, rouge… Isso se chama galicismo. Do mesmo modo que também adotamos mais trocentas palavras inglesas.

Aqui no Brasil, dentro dos carros, sempre tem uma sacola de tecido no alavanca de mudança pra colocar o lixo.

Claro, ninguém vai jogar o lixo pela janela, nem emporcalhar o chão do carro. Não é algo óbvio ter um lixinho exatamente ali?

Aqui no Brasil, os brasileiros se escovam os dentes no escritório depois do almoço.

Diz a lenda que é bom escovar os dentes sempre após as refeições, acho que ele nunca deve ter escutado.

Aqui no Brasil, se limpa o chão com esse tipo de álcool que parece uma geleia.

Aqui se limpa o chão não só com álcool, mas também querosene, para espantar insetos e mais trocentos produtos de limpeza com cheirinho de laranja, limão, flores do campo e eucalipto. Eu amo o de cheirinho de laranja.

Aqui no Brasil, a versão digital de ‘fazer fila’ e ‘digitar codigos’. No banco, pra tirar dinheiro tem dois códigos. No supermercado, o leitor de código de barra estando funcionando mal tem que digitar os códigos dos produtos. Mas os melhores são os boletos pra pagar na internet: uns 50 dígitos. Sempre tem que errar um pelo menos. Demora.

Antigamente nem isso tinha, o caixa tinha que digitar os preços dos produtos um a um, aliás, até hoje há mercadinhos, armazéns e afins trabalhando dessa maneira.

Aqui no Brasil, tem um lugar chamado cartório. Grande invenção para ser roubado direito e perder seu tempo durante horas para tarefas como certificar uma copia (que o funcionário nem vai olhar), o conferir que sua firma é sua firma.

Sim, cartório caça níquel mesmo, uma máfia. Meu sonho dourado é ser dona de cartório e motel também, dão muito dinheiro.

Aqui no Brasil, pode pedir a metade da pizza de um sabor e a metade de outro. Ideia simples e genial.

Pena que eles também não façam isso nas pizzas brotinho.

Aqui no Brasil, no tem agua quente nas casas. Dai tem aquele sistema muito esperto que é o chuveiro que aquece a agua. Só tem um porem. Ou tem agua quente ou tem um vazão bom. Tem que escolher porque não da para ter os dois.

Ah, o chuveiro elétrico! De-tes-to! Mas há muito tempo que esses chuveiros estão dando lugar mais e mais a aquecimento a gás.

Aqui no Brasil, as pessoas saem da casa dos pais quando casam. Assim tem bastante pessoas de 30 anos ou mais morando com os pais.

Sim, e às vezes casam e continuam morando na casa dos pais por motivos diversos, ou se tornam vizinhos. Eu não gostaria de ser americana, por exemplo, que quando vai para a faculdade já tem que começar a se coçar para morar sozinho. Depois de se conquistar a total independência financeira, não vejo problema nenhum a pessoa sair de casa, nada mais natural, mas também não penso que deva ser compulsório, se a pessoa gosta de morar com os pais, que mal tem?

Aqui no Brasil, tem três palavras para mandioca: mandioca, aipim e macaxeira. La na franca nem existe mandioca.

Aqui em casa comemos mandioca sempre, aipim de vez em quando e macaxeira nunca!

Aqui no Brasil, tem o numero de telefone tem um DDD e também um numero de operadora. Uma complicação a mais que pode virar a maior confusão.

Certa vez, eu e meu marido sentamos bonito, a operadora que costumamos usar para fazer ligação internacional estava com problemas naquele dia e resolvemos tentar outra. Quase caímos para trás quando a conta chegou, eles cobraram dez reais um minuto. Merda de telefonia brasileira.

Aqui no Brasil, no taxi, nunca se paga o que esta escrito. Ou se aproxima pra cima ou pra baixo.

A aproximação leva em conta uma regra de arredondamento matemático universal, não é isso?

Aqui no Brasil, marcar um encontro as 20:00 significa as 21:00 ou depois. Principalmente se tiver muitas pessoas envolvidas.

Pontualidade britânica e chá das cinco só mesmo na Inglaterra.

Aqui em Belo Horizonte, e a menor cidade grande do mundo. 5 milhões de habitantes, mas todo mundo conhece todo mundo. Por isso que se fala que BH é um ovo. Eu diria que é um ovo frito. Assim fica mais mineiro.

Ah, mal sabe ele que o próprio mundo é um ovo.

Planos Pessoais de Brasileiras Casadas com Estrangeiros em Modo de Espera

Um dos erros que cometi ao longo de meu relacionamento com meu marido estrangeiro foi deixar alguns projetos pessoais de lado. Até que meu caso não foi grave, eu não larguei coisas pela metade, nem abandonei projetos, família e amigos por causa de minha relação, mas posso dizer que não fiz nada de relevante por mim e apenas por mim durante a maior parte do tempo em que estávamos lutando para nos estabelecer em algum lugar em definitivo.

A realidade dos relacionamentos com um estrangeiro como um todo é muito pior que isso, pelo menos tomando por base as histórias que escuto e leio por aí. Na maioria das vezes, é a mulher que acaba abdicando de todos os seus projetos pessoais para conseguir vivenciar seu relacionamento. Não acho que seja ruim dedicar-se a um relacionamento amoroso com um estrangeiro, que naturalmente requer mais atenção e cuidados do que relacionar-se com alguém de mesma nacionalidade e que mora na mesma localidade, mas a longo prazo, a abdicação pode tornar-se um fardo e motivo de frustração pessoal, que pode ser agravada ainda mais caso o relacionamento não dê certo.

Eu não cheguei a me frustrar por ter deixado meus planos em modo de espera, mas às vezes tenho a sensação de que desperdicei um tempo importante de minha vida me dedicando com intensidade a meu relacionamento. Não foi um tempo ruim, longe disso, foi um período muito feliz, mas sinto que eu poderia ter feito mais em prol de meu crescimento pessoal. Minha sorte foi ter conhecido meu marido depois de ter finalizado minha graduação. Não acho que eu teria largado meus estudos, mas tenho a impressão que eu ficaria um pouco desestabilizada emocionalmente se tivesse me relacionado durante aquele período. Lembro de ter acompanhado o blog de uma moça que se relacionava à distância com um rapaz asiático. Ela intercalava sua vida com encontros esporádicos para a manutenção do relacionamento e frequentemente relatava sua imensa dificuldade em estudar, trabalhar e concentrar-se em sua rotina diária, tudo por causa desse amor tão distante. Era uma angústia e uma preocupação sobre o futuro constantes, além da falta física que sentia da pessoa.

Claro que nem todos sofrem assim, há também uma porção de gente que consegue tocar seus projetos sem stress, mesmo com um relacionamento à distância, mas, em geral, não é das tarefas mais fáceis equilibrar os projetos pessoais com os planos conjugais nesses termos. Uma hora essa distância vai ter de deixar de existir e a chance de que um dos dois tenha que sacrificar algo é alta. Meu marido, por exemplo, planejava cursar mestrado na Europa antes de me conhecer. Não sei se ele ainda tem esse desejo, mas desde que eu entrei na vida dele, esse plano foi cancelado, ou adiado, não sei. Bom, acredito que nessa altura do campeonato ele nem tem mais esse plano. Eu não cheguei a cancelar nenhum, mas não realizei nenhum de relevância durante todo esse tempo. Comecei a esboçar uma reação, no sentido de me dedicar um pouco mais a mim, apenas quando meu marido já estava aqui no Brasil comigo. Aliás, durante todo o tempo em que não tivemos residência fixa em definitivo, nem lá, nem cá, o único plano que eu tinha era apenas no plano amoroso, a dois, nenhuma das ideias contemplava apenas a mim mesma, o que hoje em dia eu acho um horror, como eu pude largar praticamente tudo de lado?

Quando ele chegou aqui e fixamos residência é que eu finalmente comecei a arejar um pouco mais minhas ideias e a focar outras coisas que não em planos conjugais amorosos, e consegui começar a traçar meus planos para dali em diante. Acho que quando a situação no relacionamento se torna nítida e relativamente estável é que é possível se focar novamente, pois é muito difícil conciliar todos os projetos simultaneamente, alguma coisa vai sair prejudicada, tanto podendo ser seu próprio relacionamento, como suas realizações pessoais, o que pode incluir estudo, trabalho, projetos e até mesmo sua saúde.

Além de não me dedicar a nada novo por um bom tempo, eu descuidei um pouco de minha saúde, especialmente quando procurava emprego para meu marido. O stress diário por causa da situação e a dificuldade em lidar com as tensões e contratempos fez minha saúde se deteriorar, tive problemas gástricos, dor de cabeça quase constante, além de ter ganhado bastante peso. Comida, além de ser uma grande fonte de prazer, tornou-se fonte de conforto.

A minha sorte é que minha situação profissional nunca foi empecilho, pude morar no exterior por um tempo sem maiores problemas, e quando voltei apenas dei continuidade àquilo que eu fazia antes, nada ficou prejudicado. Posso dizer que minha atividade só ficou em modo de espera, mas também não fiz maiores evoluções, que é justamente aquilo que eu falei acima, não houve dedicação, de minha parte, a novos projetos nesse meio tempo. Não parei para analisar o que eu poderia ter feito e nem se seria realmente possível conciliar todas as coisas, mas quem quer muito fazer algo dá um jeito, se vira.

Sei que nem todos gozam desse privilégio e por isso não são poucas as pessoas que largam emprego, estabilidade e zona de conforto para trás para fazer o relacionamento acontecer. Bem, não acho que isso seja de todo ruim, até porque eu também cheguei a cogitar me estabelecer com meu marido lá no país dele e para isso eu precisaria deixar todas as minhas coisas aqui definitivamente para trás. Por outro lado, eu me dedicaria a novos projetos lá, porque eu não queria ficar ociosa, eu queria trabalhar, fazer o meu dinheirinho também, pois me mudar para o exterior e ficar completamente dependente do marido não estava me parecendo algo muito inteligente, considerando minha natureza e meus valores. Sei de gente que vive dependente do marido no exterior (e no Brasil também) feliz da vida, cuidando da casa, do marido e das crianças, mas esse não é meu perfil. De toda forma, para todas as coisas existe o plano B, para o bem ou para o mal.

Eu penso que deixar planos em modo de espera, ou até mesmo abortá-los, não é um crime, em especial se considerarmos as circunstâncias envolvidas em um relacionamento com estrangeiros, mas caso a relação não dê certo, pode ser muito problemático e a pessoa que sairá mais prejudicada é aquela que abdicou de mais coisas. Também há casos em que a pessoa larga conforto, trabalho, estabilidade, família e amigos para se mudar, seja para o exterior ou para o Brasil, para no fim ter uma vida pior que a de antes e infeliz, será que vale a pena? Eu não sei a resposta, mas imagino que seu parceiro tenha de ser uma pessoa muito maravilhosa para que você se submeta a isso.

Se eu me mudasse em definitivo, tentaria achar um emprego legal que tivesse a ver com minha formação ou experiência. Se fosse para me esgoelar de trabalhar em algo ruim e que eu não gostasse apenas em nome do dinheiro, acho que nesse caso eu iria aceitar, sem problema algum, que meu marido me bancasse em tempo integral, coisa que ele também faria sem pestanejar, mas também não sei se eu me sentiria confortável em viver assim indefinidamente.

Bem, é difícil aconselhar sobre o que fazer com sua vida no que diz respeito exclusivamente a você e a seus planos pessoais, independentemente de seu relacionamento com estrangeiro(a), mas acredito que a coisa mais acertada a se fazer é não abdicar demais a ponto de sair prejudicado mais tarde. Um relacionamento, em especial com estrangeiro, precisa de dedicação, mas não deve se tornar seu único projeto de vida. Ambas as partes precisam ceder e abdicar em certos pontos, mas não em tudo. E é muito importante tentar tocar em frente as coisas que dizem respeito somente a você, faz bem para sua auto-confiança, estima e futuro.

Se este post foi útil e esclarecedor, deixe seu comentário, curta e compartilhe! Obrigada!

Processo Admissional e Integração de Estrangeiro Trabalhando no Brasil

Tão logo meu marido soube, por telefone, que fora selecionado para a vaga de seu primeiro emprego no Brasil (escrevi sobre como ele conseguiu esse emprego aqui), já foi convocado a comparecer à empresa para a abertura do processo admissional naquele mesmo dia. A responsável pelo departamento de gestão de pessoas deu a ele alguns documentos para preencher e assinar, que eram relativos à sua saúde e algumas outras coisas, e passou uma lista de documentos para trazer e exames de saúde para fazer, todos para serem entregues no prazo de uma semana. Nada de anormal, o procedimento foi o mesmo adotado para qualquer outro brasileiro quando contratado.

No dia seguinte, fomos tomar as vacinas obrigatórias. Meu marido tomou as primeiras doses da DT e hepatite B e eu tomei a última dose também de hepatite B, já aproveitando o embalo e deixando minha carteira de vacinação em dia. Não pagamos nem um centavo pelas doses, pois fomos à uma unidade de saúde pública que as disponibiliza gratuitamente. Eles fizeram um cadastro simples e pediram apenas o RG e o CPF do marido. Também levei a certidão de casamento apenas por questão de segurança caso houvesse algum problema.

Depois de tomadas as vacinas, foi a vez de fazer os exames de saúde admissionais, que já estavam previamente agendados pela empresa. Não nos preocupamos em buscar os resultados, pois os mesmos seriam encaminhados diretamente. Faltava apenas coletar os documentos admissionais requeridos, o que foi uma moleza, nada de anormal foi pedido, apenas os documentos de praxe:

– Cópia da carteira de vacinação com as doses obrigatórias;

– Fotos 3×4;

– Cópia do CPF;

– Extrato de PIS ativo (que é obtido na Caixa Econômica Federal);

– Carteira de Trabalho;

– Cópia do RG da mãe (não tínhamos, tivemos de pedir uma cópia digitalizada para os parentes lá do país do meu marido);

– Atestado médico de saúde ocupacional considerado apto (é o próprio médico da empresa, ou outro qualquer designado, quem dá esse atestado após analisar todos os exames);

– Cópia da certidão de casamento;

– Comprovante de endereço;

– Comprovante de escolaridade de acordo com o cargo (nesse caso, ele apresentou seu diploma de graduação original, em inglês, com os carimbos da Embaixada do Brasil, e também a sua tradução juramentada para o português).

O que não foi necessário entregar por se tratar de estrangeiro foi:

– Certificado de Reservista;

– Título de Eleitor;

– CPF da mãe.

Todos esses documentos solicitados para a admissão foram baseados na condição de permanente de meu marido aqui no Brasil. Um estrangeiro que venha ao país com visto de trabalho precisa apresentar muitos outros documentos, em um processo bastante diferente e que começa antes mesmo de se chegar ao Brasil.

De toda forma, reparem que na contratação do estrangeiro permanente no Brasil não há nenhum segredo, não é preciso apresentar documentos malucos, nem nada, é simplesmente uma contratação como outra qualquer, como se fosse um brasileiro, o único documento extra solicitado foi a cópia do passaporte. Nessa empresa específica para a qual meu marido trabalhou, todos os documentos foram verificados e analisados pelo setor jurídico antes mesmo que meu marido soubesse que fora selecionado. Eles analisaram seu passaporte, visto, carimbo da imigração, data de entrada no país, nossa certidão de casamento, carteira de trabalho, RNE e CPF. Só depois do ok do setor jurídico é que ele pôde passar, enfim, para o processo admissional. Isso não é de praxe, foi uma exceção, e não aconteceu nas outras contratações pelas quais meu marido passou aqui no Brasil.

Interessante observar que, ao longo de todo o processo de procura por emprego, percebemos o medo e o receio de algumas poucas empresas em contratar um estrangeiro, porque pensam que, para contratá-los, há um processo burocrático altamente complexo, talvez pensando que seja parecido com o visto de trabalho, mas não é nada disso. Acho que há essa ideia no ar, porque o processo para trazer um estrangeiro sob visto de trabalho é cheio de burocracias, e também por pura falta de conhecimento sobre o assunto. Enquanto houver esse tipo de pensamento, o jeito é se virar, durante os processos seletivos, para “instruí-los” com as informações corretas.

O processo admissional foi isso então, muito simples, muito prático e muito rápido. Logo eles comunicaram o dia em que ele começaria e era só aguardar.

A primeira semana do marido na empresa transcorreu sem maiores problemas, foi um processo muito suave para ele. Na verdade, não foi um trabalho propriamente dito, mas sim uma semana inteira de integração, em que ele e os demais contratados foram introduzidos à toda a sistemática, procedimentos e filosofias da empresa.

Ao longo da semana, o contrato de trabalho foi assinado e a conta em banco foi aberta. Aqui não há segredo, para abrir essa conta, só foi necessário, além de uma carta de encaminhamento da empresa, apresentar cópia do RNE e do CPF e um comprovante de residência. Como ele não tinha comprovante em seu nome, a residência foi comprovada da seguinte maneira, o proprietário do imóvel em que moramos fez uma declaração de residência para ele (super fácil achar modelo dessa declaração na internet caso não saiba como fazer) e a assinatura dele teve firma reconhecida em cartório. Daí só precisamos anexar uma conta de luz ou qualquer outra, que pode ser em nome do mesmo proprietário do imóvel.

Naquela mesma semana, uma equipe da empresa deu as boas-vindas, além de explicações sobre o regimento interno da empresa, normas de conduta, também explicaram sobre seus valores, missão, fizeram várias atividades e mostraram todos os setores da empresa, tudo muito suave e agradável. Meu marido também recebeu explicações sobre algumas coisas relativas às leis trabalhistas, tipo cálculo de férias, horas-extras e mais uma infinidade de outras coisas. Diz ele que estava entendendo quase tudo, mas vocês sabem, né? Não confio muito em português de gringo rs…

Se este post foi útil e esclarecedor, deixe seu comentário, curta e compartilhe! Obrigada!

Vale a Pena para um Estrangeiro Morar no Brasil?

Depende. Depende da disposição, da situação financeira e de uma série de outros fatores não menos importantes, tudo deve ser levado em consideração, até mesmo as pequenas coisas, como o clima, por exemplo. Há que se ponderar muito antes de tomar uma decisão, estudar muito as possibilidades e ser extremamente realista com a situação. Às vezes, morar no Brasil pode não ser a solução ideal nem a mais inteligente para muitos casais gringo-brasileiros por inúmeros fatores, mas ainda que tudo aponte para não morar aqui, tem gente que insiste.

O grande problema é que muita gente idealiza as coisas demais e é lógico que é muito pouco provável que as coisas se ajustem aos seus desejos, é você quem terá de ajustar seus desejos às situações. Eu acho que uma das primeiras coisas a se refletir é sobre um prazo razoável e realista até que se atinja um estágio de adaptação relativa no Brasil, o que inclui livrar-se de todas as burocracias, ter boa desenvoltura no idioma e conquistar a primeira oportunidade de emprego no país. Não dá para estipular menos de um ano para tudo isso, ainda que haja um ambiente altamente propício em algumas situações, mas a possibilidade de que tudo se resolva rápido é mínima. Minha estimativa máxima, em nosso caso, era três anos, um pouco exagerado, já meu marido imaginou que tudo se arranjaria em 6 meses. Nenhum de nós acertou, mas meu marido com certeza exagerou em seu otimismo inicial. São muitos os casos de estrangeiros que ficam patinando por anos aqui até que tudo se ajeite, então é uma realidade da qual não se tem como fugir, especialmente se o português for ruim.

É por isso que muita gente me pergunta por que eu e meu marido escolhemos morar no Brasil, mesmo sabendo sobre as inúmeras dificuldades envolvidas em diversos aspectos e que dificultam estabelecer-se decentemente aqui. Primeira coisa, a dificuldade para mim era muita clara, já meu marido não tinha muita noção sobre isso. De qualquer modo, tanto eu quanto ele estávamos dispostos a pagar para ver e a razão principal de termos optado por morar no Brasil se resume em uma única palavra: JUVENTUDE. Se não fosse agora, que somos jovens, então quando? Quando meu marido conquistasse estabilidade financeira lá no país dele? Quando eu já estivesse completamente inserida e adaptada à sua cultura? Quando eu também tivesse me arranjado profissionalmente lá? Quando os filhos viessem? Quando ficássemos mais velhos, preguiçosos e exigentes? Quando o comodismo se instalasse? Aquela era a hora para nós e eu nem pensei muito nos contras, porque eu tinha a juventude ali para me salvar e amparar. Eu só conseguia pensar em uma coisa, uma vez que o visto permanente de meu marido estivesse garantido, então teríamos toda a liberdade do mundo para tentarmos todas as possibilidades possíveis, já que uma das hipóteses para perda de permanência é ficar ausente do Brasil por mais de dois anos consecutivos.

De qualquer forma, para mim, qualquer opção escolhida estaria bom, tanto eu poderia morar no país do marido como poderia morar aqui e também não descartamos voltar para lá um dia, ainda que isso seja pouco provável. O desespero para morar no Brasil também não existia, tanto é que nos fixamos aqui quase dois anos depois de casados, ou seja, tivemos tempo suficiente para avaliar se a mudança valeria a pena. Concluímos que valeria, ainda que houvesse alguns riscos envolvidos.

Supondo que tudo desse errado, ainda assim sairíamos no lucro: um visto permanente para poder voltar a morar aqui quando desse vontade, uma nova língua para o currículo do marido e, claro, uma grande experiência cultural. Um casal já vivendo um outro momento na vida não veria tal situação com tanto otimismo quanto nós. Tenho um exemplo. Certa vez, fui fazer uma visita de rotina à minha médica e ela comentou que tinha outras duas pacientes também casadas com estrangeiros. Interessei-me sobre o assunto e comecei a especular. Logo descobri que os dois casais estavam vivendo uma intensa frustração. Já não eram tão jovens, deixaram não só seus empregos para trás, mas também a estabilidade financeira e social achando que as coisas no Brasil seriam como no paraíso. Na prática, eles estavam enfrentando dificuldades para entrar no mercado de trabalho e também estavam se lamentando muito por terem jogado tudo para o alto para viver com suas esposas aqui.

É nessas horas que eu fico me perguntando, será que as pessoas pesquisam e tentam se informar antes de vir de mala e cuia para o Brasil? Será que têm a mínima noção de todos os processos burocráticos envolvidos e de todas as dificuldades que existem ou simplesmente pensam que, por se tratar do país do carnaval, tudo é uma festa? Eu não sei, mas às vezes me parece que é exatamente isso. Tudo que escrevo aqui no blog é fruto de mais de 5 anos de muita pesquisa, muita procura por informações, isso tudo antes mesmo de meu marido se mudar, será que as outras pessoas também fazem isso? Será que se preparam economicamente para as vacas magras antes de vir? Fazem uma pesquisa do mercado de trabalho em sua área de atuação? Estudam português? Pensam em soluções alternativas caso algo saia errado? Sempre há uma saída para tudo, mas dificilmente uma pessoa madura irá querer arriscar passar mais de ano vendo nada de concreto acontecendo, apostando em um futuro sem garantia nenhuma, apesar de ser promissor, sim, para quem luta por isso. Mas até lá, o que fazer com as contas? Como botar comida na mesa? Seu companheiro(a) brasileiro conseguiria, sozinho, dar conta de tudo, sustentando a família durante o tempo em que vocês estarão lutando pela estabilidade?

Tudo isso são pontinhos muito sensíveis a se ponderar. Eu e meu marido não tínhamos nada mesmo a perder, estávamos, praticamente, começando a vida juntos e felizmente sempre tivemos muito apoio. Dinheiro também não foi um grande problema, apesar de ser um pouco curto para o sustento de dois, então é claro que tivemos alguma dificuldade, pois tudo no Brasil é muito caro, mas pagamos todas as nossas contas. Investimos um dinheiro considerável nos cursos de aperfeiçoamento que meu marido fez e passamos alguns meses apertados por causa disso, mas também não tínhamos maiores preocupações, como filhos, por exemplo, então não precisamos ficar fundindo a cuca e fazendo mágica com nossa verba mensal. Eu sinceramente acho que a falta de dinheiro é uma das piores inimigas do casal gringo-brasileiro, o relacionamento simplesmente não acontece, não se realiza.

O que eu quero dizer é que, mesmo se as coisas demorassem um pouco para se ajeitar para a gente, como de fato demorou, não sofreríamos maiores efeitos colaterais. Meu marido estava ficando preocupado com sua carreira, pois ele achava que um tempo considerável sem emprego seria péssimo para seu histórico profissional. Já eu não partilhava da mesma ideia, afinal, ele não estava simplesmente coçando sem fazer nada, mas estava aprendendo uma língua nova, fazendo cursos direcionados à sua carreira e isso, hoje em dia, é motivo de muita valorização do profissional no mercado de trabalho.

É lógico que sempre há a possibilidade de algo sair errado no emprego e ele ser dispensado, como de fato aconteceu, conforme contei aqui, mas a opção de voltarmos para o país dele sempre estará lá, nos dando um pouco de conforto. E se não quisermos voltar para lá, já conhecemos muito bem o caminho para conquistar um emprego, por mais demorado e cheio de pedras que seja.

Penso, então, que em nosso caso valeu a pena, sim. Meu marido está muito melhor profissionalmente aqui e nossa vida pessoal também se beneficiou dessa escolha em muitos aspectos. Não acho que eu teria maiores dificuldades para me adaptar plenamente ao país de meu marido, mas é inegável que aqui é muito melhor para mim. Em termos de adaptação cultural, meu marido gosta do Brasil, não tem queixas sérias sobre o país, apenas em poucos aspectos ele se mostrou resistente, como em relação a comida e ao idioma, muito por causa de sua preguiça extrema de estudar português. Mas o que ele me infernizou de verdade foi por causa de emprego, foram muitas e muitas as vezes em que ele extrapolou sua cota chiliquenta, acho até que mereço um prêmio por tê-lo aguentado nesses momentos. Mas, como qualquer casal normal, nos desentendemos por vários outros motivos que em nada têm a ver com nossa nova vida no Brasil, muito menos com o fato de sermos dois estrangeiros se relacionando, são coisas corriqueiras, como acontece com qualquer casal “normal”.

O que quer que tenhamos conquistado até agora, foi fruto de um esforço muito maior meu (em termos operacionais) e meu marido sempre teve a humildade de reconhecer isso, sem nenhum rodeio, para todo mundo, não importa quem. Isso não quer dizer que ele é aproveitador ou que não ajudou nem fez nada, foi simplesmente o modo como nos arranjamos para fazer as coisas acontecerem. De todo modo, não me incomoda o fato de ter feito mais do que ele na maior parte do tempo antes de ele começar a trabalhar aqui no Brasil, eu fiz o que tinha que ser feito e com o tempo essa equação tem se equilibrado muito bem. Quando trazemos nosso companheiro estrangeiro para cá, grande parte do sucesso dessa escolha de morar aqui recai em nossas costas, são muitas as responsabilidades. O mesmo aconteceria com seu companheiro se ele decidisse te levar para lá.

E se levar um pé na bunda depois de tudo isso? É a pergunta que atormenta a vida da maioria das pessoas que se relaciona com estrangeiros. É um risco que se corre. Se acontecer comigo, pela minha natureza, é claro que vou surtar e ficar com vontade de matar e esquartejar, eu sou meio possessiva e passional, mas terei a consciência tranquila de que fiz tudo que era possível, de minha parte, para ajudar a fazer a coisa dar certo. Nunca se esqueçam, basta estar vivo para correr perigo. E sempre há tempo para recomeçar.

Se este post foi útil e esclarecedor, deixe seu comentário, curta e compartilhe! Obrigada!

Estudo como Solução Alternativa para o Desemprego de Estrangeiro no Brasil

Certa vez, quando ainda estávamos na luta pela primeira oportunidade de emprego para meu marido estrangeiro aqui no Brasil, começamos a pensar em soluções alternativas, uma vez que, àquela altura, ainda não tínhamos uma visão muito clara sobre o que aconteceria no futuro. Podia ser que as coisas se ajustassem e dessem certo logo, tanto quanto poderiam se estender indeterminadamente e meu marido acabasse fazendo aniversário de desemprego por um bom tempo.

Como nem eu, muito menos ele, queríamos celebrar esse tipo de “bodas”, começamos a estudar outras possibilidades. O fato era, não havia emprego em mãos, continuaríamos procurando até encontrar, mas só procurar emprego não nos parecia suficiente, o que mais poderia ser feito, então? Ele já tinha feito dois cursos de aperfeiçoamento, como já comentei aqui, então nosso primeiro pensamento foi investir mais dinheiro em mais desses cursos. Um dia, enquanto procurava cursos com meu marido, ocorreu-me que, ao invés de ficar fazendo mil cursinhos de aprimoramento, ele deveria tentar dar um passo maior e voltar à universidade.

A lógica por trás foi a seguinte: um estrangeiro, permanente no Brasil, pode até não conseguir um emprego, mas já que estava aqui mesmo, então que utilizasse sua permanência da melhor forma possível. Como? Estudando. Tanta gente querendo ir para o exterior para estudar, crescer e fazer alguma coisa de realmente relevante, já que meu marido estava aqui, então que fizesse algo útil, especialmente considerando-se uma situação hipotética em que tudo desse errado e tivéssemos que retornar ao país de meu marido. Caso perguntassem lá no país dele “o que você ficou fazendo no exterior por mais de 2 anos?“, a resposta certamente não seria “estava esperando um emprego cair do céu, não deu para mim“, mas sim “estava estudando, investindo em meu futuro e em minha carreira“.

Meu marido e eu conversamos e ele também estava com a mesma ideia na cabeça. Concluímos que, apesar de ser um passo grande, ele estava preparado para isso, pois já tinha uma ideia clara sobre qual área seguir. Ademais, seu português já estava bom o suficiente para dar conta do recado. Então, naquele mesmo mês, começamos a procurar cursos de especialização e mestrado nos sites das melhores universidades, tanto federal/estadual quanto particular. Acabamos descartando o mestrado, pois estudos stricto sensu são muito mais maçantes e específicos e meu marido achou que não era sua hora ainda. Na verdade, ele não pensa em fazer mestrado tão cedo, então só sobrou a especialização, mesmo, como opção. Com isso, nos focamos no tipo de curso que ele queria, o qual achamos em duas universidades, ambas particulares, de excelente reputação e muito tradicionais. Infelizmente, a universidade federal de meu estado não oferta curso de especialização na área em que ele queria, então escolhemos a particular mesmo.

Quando as inscrições foram abertas, fizemos tudo pelo site, sem nenhum problema. Claro que antes de pagar a inscrição, informei-me sobre o procedimento para estrangeiro. Tudo normal, a secretária apenas perguntou se o visto dele era de estudante, pois o procedimento seria diferente, mas não era o caso. Como ele é permanente, ela só perguntou se ele tinha CPF, RG e diploma de graduação com os selos da embaixada e tradução juramentada para o português. Tinha. Então estava tudo certo, era só aguardar a confirmação do curso. Com o curso confirmado, lá foi meu marido para a especialização. Até então, ele não sabia que já tinha conseguido emprego, mas mesmo assim ele estava super feliz e empolgado, acho que nem ele pensou que faria uma pós-graduação tão logo.

Como eu não confio em português de gringo, fiquei ressabiada. Logo que começaram as aulas, comecei a perguntar se os professores já haviam passado alguma atividade, ao que ele me disse que estava tudo bem. Não me convenci, algo me dizia que estava tudo muito bem para ser verdade. Até que um dia descobri que ele nem havia acessado a página das disciplinas do curso na intranet. Quase tive um treco. Na verdade, havia um problema com sua senha de acesso. Depois de resolvido, quando acessei o sistema, vi que havia algumas atividades que ele nem sabia que tinha que fazer e com prazo de entrega vencido! Até ele se assustou, tadinho, fiquei com dó, pois ele entendeu que tinha que preparar apenas um seminário, quando na verdade já tinha fichamentos e resenhas para entregar. Dei uma mão para ele e entregamos as atividades atrasadas. Claro que justificamos para a professora e ficou tudo bem, mas passamos um sufoco!

A questão central é, estudo é a solução para muitos problemas, sempre foi e sempre será o melhor investimento. Sei que não é barato e, antes mesmo da notícia do emprego, discutimos sobre como ajustaríamos a mensalidade da especialização às nossas contas, foi quando cogitamos que meu marido desse aulas de inglês. Não foi preciso, mas se fosse, seria assim que iríamos nos virar.

E se a pessoa não tem muito estudo, o que fazer? Complete os estudos aqui, oras, há milhares de opções! Uma vez que o português esteja bom o suficiente, o negócio é se jogar de cabeça. Sei que é difícil fazer um vestibular tradicional, pois tem de estudar história e geografia do Brasil, por exemplo, mas há cursos técnicos, faculdades com vestibular facilitado, há várias opções e para todos os bolsos, é só procurar. Estudando em um instituto ou faculdade no Brasil e que seja reconhecido pelo MEC, são muitas as possibilidades que se abrem, inclusive para fazer estágio. A pessoa só tem a ganhar, além de garantir que muitas outras portas se abram no futuro. Sem dúvida alguma é a melhor solução alternativa que alguém pode ter.

Se este post foi útil e esclarecedor, deixe seu comentário, curta e compartilhe! Obrigada!

Palpites Furados que as Pessoas Dão para Estrangeiros no Brasil

Se houve uma coisa que escutei muito antes e depois da vinda de meu marido ao Brasil foi palpite furado sobre o que deveríamos fazer ou não. E ora, vejam só, que coincidência, todos os palpites foram negativos, que coisa, não? Meu conselho é, nunca deixe ninguém dar palpite furado, te pôr para baixo ou tirar suas esperanças do que quer que seja, pois se vocês se esforçarem, vai dar tudo certo, sim, não tem porque dar errado. Pode até demorar um pouco, mas que dá certo, é claro que dá.

Infelizmente, algumas pessoas bem que tentaram me envenenar com seu pessimismo. Não me deixei abater, mas também sou daquelas que não esquece nomes jamais. Uma amiga minha, que eu considerava bastante, disse, antes mesmo de meu marido se mudar para o Brasil, que ela tinha peninha de mim, porque ele dificilmente conseguiria emprego. Que legal, né? Outra pessoa, uma prima mais distante, também soltou uma pérola quando eu comentei com ela que meu marido havia recebido uma proposta de trabalho através de um contato. A oferta era para trabalhar como operador de produção, mas que ele havia recusado, já que ele era engenheiro, tinha qualificação e experiência suficientes e também porque seu perfil estava despertando interesse no mercado de trabalho. Pois não é que a prima deu uma risada diabólica e disse que era pouco provável que ele começasse tão bem, trabalhando como engenheiro, e que ele tinha que começar por baixo? Ah tá, entendi.

Não satisfeita, ela disse que ele só conseguiria emprego se tivesse um contato para arranjar para ele, que ela mesma já tinha procurado muito emprego na vida e que a coisa só funciona mesmo na base do contato. Será esse o motivo pelo qual ela ainda não engrenou em sua própria carreira, mesmo sendo graduada em uma área cheia de oportunidades? O que será que ela fez, ou deixou de fazer, que não conseguiu emprego bom por méritos próprios? Será que ela acha que conseguir emprego por contato é um atalho que facilita muito a vida? O engraçado é que ela não foi a única a falar uma coisa dessa, tá cheio de gente por aí que acredita piamente nisso.

Se tem uma coisa que eu simplesmente não aguento é esse tipo de papo. Quando se fala em procurar emprego, a primeira coisa que falam é sobre contato. Isso cansa a minha beleza, sério mesmo. Se há um contato realmente bom, disposto a fazer alguma coisa por você, ótimo! Mas isso não significa que você deva pregar a sua bunda no sofá e esperar a boa vontade do contato, mexa-se enquanto isso se você acha mesmo que esse lance de contato é o que realmente funciona. Talvez seja pessimismo meu, mas eu não acho que muita gente esteja assim tão disposta a ajudar e te ver bem sucedido e encaminhado. Familiares, amigos próximos e um ou outro conhecido podem até torcer por você e estar mesmo interessado em te ajudar, mas quanto ao restante, com raríssimas exceções, não estarão nada preocupados.

Não sou besta de dizer que contatos não existem, eu até conheço algumas poucas pessoas que foram contratadas dessa maneira, mas eu acredito muito mais na capacidade das pessoas, acima de qualquer indicação ou contato. Claro que quando se fala em contatos, há muitos tipos a se levar em consideração e não somente aquele conhecido que conhece alguém que pode ajudar. Há indicação por capacidade, mas também por amizade e simpatia, e não necessariamente por qualificação. Também tem o “jeitinho” brasileiro e assim por diante. Mas não importa, eu ainda acho que qualificação fala muito mais alto e que uma pessoa preparada não deve temer procurar emprego pelos modos tradicionais, sem atalhos. Vai conseguir.

É óbvio que é muito cômodo defender que as coisas aqui no Brasil só funcionam na base do quem indica, mas eu não acho que isso seja verdade. A real é que a maioria dos empregos é conquistada na raça mesmo, só leva quem for o melhor. Não à toa que hoje em dia há processos seletivos longuíssimos, caros, divididos em várias etapas e conduzidos por profissionais especializados. É idiota pensar que uma empresa vai gastar tempo e dinheiro fazendo seleção de pessoal se no fim das contas vão contratar um sujeito que foi indicado por alguém de dentro da empresa. Isso pode até acontecer, mas não é a regra.

O pior é que até mesmo entre os próprios estrangeiros vivendo no Brasil há esse consenso de que a maioria só consegue emprego por indicação, cheguei até ler alguns artigos sobre isso em inglês! Pois olhe, eu, em minha insignificância, desafiaria qualquer um, seja brasileiro ou estrangeiro, a enfiar a cara e procurar emprego de verdade, com vontade, para ver se conseguiria ou não. Eu mesma fiz isso, mesmo escutando zilhões de vezes que era quase impossível, e deu certo todas as vezes.

Talvez eu esteja errada, mas o que eu acho que acontece muito é o sujeito ter uma preguiça profunda no corpo, porque eu estaria mentindo se dissesse que é fácil e agradável procurar emprego pelo modo tradicional. É claro que não, e é claro que dá preguiça, e é por isso que as pessoas se fiam muito nessa história de contato. Outra desculpa muito comum entre estrangeiros é culpar sua condição de estrangeiro no Brasil, dizendo que não entende nada do sistema daqui e que brasileiro é protecionista. Desapegue, isso não é verdade. Uma vez que se está morando aqui, é melhor começar a aprender a se comportar como um daqui no mercado de trabalho, pois na prática você será tratado como outro brasileiro qualquer, não há processos especiais, é tudo igual. E as empresas não descartam um estrangeiro por ser estrangeiro, eles descartam aqueles profissionais que não possuem as competências e habilidades necessárias para a posição, seja brasileiro ou estrangeiro, simples assim.

Então, por mais que eu tenha escutado milhares de vezes que só conseguiríamos por indicação, eu liguei o aviso luminoso de “dane-se” (para não dizer outra coisa) para essas pessoas e fui correr atrás, porque para dar palpite furado o povo é muito bom, indicar ou ajudar que é bom. ninguém quer. Se eu não tivesse arregaçado as mangas e estivesse esperando por uma intervenção divina, ou uma ajuda amiga ou de quem quer que fosse, sabe lá o que seria de nós. Na verdade eu sei, sim, meu marido estaria desempregado até hoje.

Acho que quase ninguém acreditava que fôssemos conseguir, mas quando viram que nosso esforço procurando emprego estava dando resultado, as pessoas começaram a pedir dicas para nós, até mesmo ajuda! Gente que eu sei que nunca procurou um mísero emprego na vida, que todos os empregos que teve foram na base da ajuda de amigos e familiares, mas quando viu que a coisa funciona mesmo, se animou para fazer igual. Uma dessas pessoas queria até que eu fizesse para ela a mesmíssima coisa que fiz para o marido, em troca ela me daria 3% de seus três primeiros salários. Esses 3% eu não sei de onde foram tirados, mas abafa o caso, eu desconversei o assunto, porque eu jamais faria para ninguém do mesmo jeito que fiz para o marido. Talvez só fizesse igual se fosse muito bem remunerada para isso.

A “amiga” que disse que tinha peninha de mim também soltou mais uma pérola certa vez quando soube que tínhamos conseguido, ela disse que a notícia era ótima, mas que agora teríamos que rezar para ele permanecer empregado. Outro sujeito disse que sem revalidar diploma e sem registro no conselho de classe, meu marido só poderia trabalhar como operador de produção. Detalhe que esse sujeito tem a mesma formação de meu marido e disse isso na cara dele, sem dó nem piedade. O pior de tudo é que meu marido acreditou, pois foram palavras que saíram da boca de um colega de profissão. Nós acabamos brigando por causa disso, tudo por causa de um sujeito ignorante que nem sabe de nada sobre a situação do estrangeiro no Brasil e fica falando um monte de merda que julga ser verdade. Queria que ele explicasse o fato de meu marido ter conseguido um emprego bom, com um cargo que em nada tem a ver com operador de produção. Eu fiquei morta de ódio. Só para esclarecer, já falei sobre isso antes, não temos nada contra operadores de produção, é uma profissão digna e fundamental à indústria, mas quem trabalha como operador o faz por falta de maiores opções, porque falta muitas coisas, como qualificação, estudos, mais oportunidades, etc. Quase ninguém escolhe ser operador quando crescer, é a ocasião que faz a situação, ou seja, a falta de maiores opções. Meu marido tinha opções, estudo, oportunidade, demorou um bocado, mas deu certo.

A grande questão em relação aos palpites furados que as pessoas dão é, eu sei muito bem o que meu marido, na condição de estrangeiro, pode ou não pode fazer, quais são seus direitos, quais são suas limitações, eu me informei sobre tudo de mais importante que precisávamos saber. Não será um completo idiota e ignorante, que não sabe de nada disso, que vai me “instruir” sobre o assunto. Por isso tudo é que nunca pedi opinião nem orientação a ninguém, sempre fui auto-suficiente, pesquisei tudo nas leis, nos sites dos ministérios e em várias outras fontes, pois conhecimento e informação são nossos melhores companheiros nesta jornada. Dessa maneira, ninguém conseguirá nos fazer de idiota ou nos enganar, sabemos de nossos direitos. O achismo das pessoas não tem cabimento nenhum em momento algum. E se for para desabafar com alguém, seja muito criterioso na hora de escolher, um único desabafo com a pessoa errada, na hora errada, pode colocar muita coisa a perder.

Se este post foi útil e esclarecedor, deixe seu comentário, curta e compartilhe! Obrigada! 

Dicas de Procura de Emprego para Estrangeiro no Brasil – III

Durante a procura por emprego para meu marido estrangeiro aqui no Brasil, por duas vezes ele esteve bem perto de conseguir uma vaga em sua área de atuação, mas as vagas foram suspensas. Isso é possível ou é só lorota? Não só é possível como também é muito comum de acontecer.

Uma das vagas era para uma multinacional alemã de médio porte. Meu marido foi chamado para a entrevista principalmente por causa do seu segundo curso de aperfeiçoamento, o qual ele tinha feito recentemente à época e que tinha tudo a ver com a vaga que a empresa estava ofertando. Na primeira entrevista, além de conversar com a analista de RH, ele teve oportunidade de conversar, também, com o dono da empresa, que era alemão. Nesse encontro, o alemão comentou que a continuidade do processo seletivo dependia de uma permissão que viria da Alemanha, qualquer que fosse o candidato selecionado, mas que, independente disso, haveria uma segunda rodada de entrevista com um dos diretores da fábrica. No dia combinado, ele foi fazer a entrevista com o tal do diretor e não é que o sujeito olha bem pra cara dele e diz que era contra a abertura da vaga, que a empresa não precisava, que era um gasto desnecessário e tal? Achei estranho, afinal, se eles não estavam nem ao menos certos sobre o futuro da vaga, nada daquilo fazia sentido. Passado um tempo, a analista de RH ligou confirmando que a vaga havia mesmo sido suspensa.

A outra vaga, que também acabou sendo suspensa, era super interessante. Tratava-se de uma empresa terceirizada, bem pequena, mas que prestava serviço para uma gigante dos eletrodomésticos. Todo o serviço seria em inglês, era um pré-requisito indispensável. E havia outros estrangeiros trabalhando na empresa, um colombiano e um equatoriano, que também eram casados com brasileiras. No fim, a vaga também foi suspensa por motivos econômicos.

Eu nunca fiz distinção na hora de mandar currículo, eles foram enviados tanto para empresas pequenas, quanto para as grandes multinacionais, só procurei manter o foco na hora de escolher as vagas para as quais mandar. Mas mesmo assim, meu marido passou por duas situações curiosas. Certa vez, ele foi chamado para entrevista em uma indústria bem pequena. Era uma vaga mais simples e com uma remuneração ruim, além de ser super longe de casa. Tínhamos plena noção de tudo isso, mas como a vaga tinha certa relação com a experiência do marido, ele resolveu ir à entrevista mesmo assim e até estaria disposto a aceitar uma oferta, afinal, um desempregado pode até ser um pouco seletivo em suas escolhas, mas não tanto assim. Resumindo história, o dono da empresa, que foi quem o entrevistou, estava super nervoso e desconfortável, porque era currículo e experiência demais para uma empresa de porte tão pequeno.

Em outra situação, viajamos uma hora e meia de carro para uma entrevista em uma empresa multinacional de grande porte em outra cidade para escutar que ele era qualificado demais para a vaga. Ora, então por que nos fizeram viajar tantos quilômetros para nada?

Em geral, eu sempre procurei enviar o currículo do marido para vagas em que ele teria mais chances e é lógico que, por ser estrangeiro, teoricamente as chances são maiores em empresas multinacionais, ou então em vagas em que o inglês fluente seja pré-requisito. Vale ressaltar que o espanhol fluente também é muito valorizado e solicitado aqui no Brasil, o inglês ganha a disputa por pouco. Outras línguas solicitadas são o francês e o alemão, com menor frequência chinês, japonês e italiano. De qualquer forma, ainda que minha preferência sempre tenha sido multinacionais, mandei o currículo para as nacionais de pequeno e médio porte também, sem distinção.

Também é legal criar um perfil profissional no LinkedIn, site muito utilizado por profissionais para fazer networking e procurar emprego. Já mandei vários currículos utilizando as ferramentas do site, mas confesso que ainda não fazemos amplo uso de todas as ferramentas que ele oferece, mas apenas o básico, como participar em grupos de profissionais, grupos de divulgação de vagas, grupos de estudos, envio de currículos, etc. Também seguimos o perfil de algumas empresas pelas quais meu marido se interessa e, claro, adicionamos contatos profissionais. A ideia não é fazer volume, mas sim selecionar seus contatos com qualidade. Os contatos que meu marido tem são, em sua maioria, pessoas que ele conheceu durante seus cursos, os analistas e gerentes de recursos humanos de empresas diversas – inclusive com quem ele fez entrevistas – e profissionais de outras áreas que ele eventualmente tenha tido contato e/ou trabalhado.

O bacana é que ele já recebeu alguns convites para entrevistas por meio do LinkedIn sem nem ao menos se dar ao trabalho de ir atrás, inclusive quando estava trabalhando. Então, apesar de não explorarmos todas as possibilidades do site como deveríamos, eu acho muito válido manter o perfil atualizado (é o que eu faço), pois as grandes e boas empresas o estão usando cada vez mais para divulgação de vagas e recrutamento de pessoas. Recomendo.

Depois de mandar currículo frequentemente por mais de um ano, fiquei com uma forte sensação de que uma boa época para intensificar a procura por emprego é a partir da metade de dezembro até, no máximo, o meio do ano, ou seja, durante todo o primeiro semestre. Não que no segundo semestre do ano seja ruim, mas parece-me que há uma queda significativa das ofertas. O motivo eu realmente não sei, mas li algo relativo a isso em vários artigos sobre profissão e carreira que reforçaram essa minha sensação.

Eu já passei algumas férias de verão procurando emprego para o marido, em véspera de Natal e Ano Novo inclusive, mesmo se estivesse na praia. Não houve um dia sequer que eu não tenha enviado currículo. Claro que durante o período de festas, por causa dos feriados e férias coletivas de muitas empresas, não há tanta vaga sendo anunciada. Em compensação, não há, também, tanta gente procurando emprego e isso pode ser vantajoso para quem está determinado a conquistar uma vaga, afinal, enquanto você está lá, sacrificando seus momentos de folga procurando emprego, atividade que definitivamente não tira férias, muita gente está querendo curtir as férias, o verão, as festas e tudo o mais a que se tem direito. Então reflita sobre quem irá sair em desvantagem nesse caso.

Dizem que as pessoas geralmente só começam a se preocupar com emprego depois do carnaval. Não sei se é verdade, mas tiro proveito disso sempre que necessário e mantenho, e até intensifico, a rotina de envio de currículos enquanto os concorrentes estão entretidos pelo clima de festas e pelo verão. São alguns dos sacrifícios que a gente tem de fazer se estamos realmente firmes em nossos propósitos e determinados a realizá-los. Como eu queria ver o marido empregado o mais rápido possível, tive mesmo que sacrificar muitas horas de descanso. A tática sempre deu certo e ele sempre conseguiu emprego no primeiro trimestre do ano. Não tenho dúvida de que foi resultado do esforço que sempre fizemos de enviar o currículo dele intensamente, mesmo durante as festas de fim de ano.

Perdeu as dicas anteriores? Leia aqui e aqui.

Se este post foi útil e esclarecedor, deixe seu comentário, curta e compartilhe! Obrigada!

Dicas de Procura de Emprego para Estrangeiro no Brasil – II

Para quem não leu o primeiro post com dicas para a procura por emprego para estrangeiro morando no Brasil, sugiro que lei o primeiro post de dicas, clicando aqui, e também o post “Como Conseguir Emprego para Estrangeiro no Brasil – Relato de Sucesso“. Continuemos, então.

Supondo que não haja nada de errado com o currículo, ou seja, que ele esteja bem escrito, e que seja claro e objetivo na descrição das experiências e conquistas profissionais; supondo, também, que o estrangeiro esteja procurando emprego com vontade, enviando currículo todos os dias, religiosamente, ou pelo menos quase, e que também esteja procurando se aperfeiçoar profissionalmente para se posicionar melhor no mercado de trabalho, é quase certo que, muito em breve, ele comece a receber ligações das empresas, não tem erro.

Só para vocês terem uma ideia da necessidade de ser regular e insistente em seus envios de currículos, sempre que meu marido é aprovado em um processo seletivo, eu, logicamente, paro completamente de enviar currículos, e as ligações também param abruptamente. Às vezes recebemos algumas ligações “residuais” relativas ao envio de currículo durante o período imediatamente anterior à contratação, quando ainda enviávamos currículos sistematicamente, mas, basicamente, as ligações cessam completamente.

Isso apenas reforça aquilo que eu já falei em outros posts, não tenha preguiça! Quanto menos currículos enviar, quanto mais dias você falhar e sentir preguiça, mais suas chances diminuirão. Você, estrangeiro(a) ou companheiro(a) de estrangeiro, procurando emprego, não pode se dar ao luxo de pensar na morte da bezerra. Se quiser trabalho, vai ter de trabalhar muito antes, e o pior, trabalho não remunerado, mas pode estar certo que, quando você conseguir, verá como todo o esforço terá valido a pena e terá se arrependido de não ter feito isso antes.

Lembro de ter lido, certa vez, em um site popular entre estrangeiros morando no Brasil, um sujeito reclamando de dar muitas entrevistas e de nunca dar em nada, e que ele estava farto disso. Isso é mesmo um fato, você dá mesmo uma infinidade de entrevistas que, no final das contas, foram quase perda de tempo, e de dinheiro também, e que não dão mesmo em nada. Só não é uma completa perda de tempo, porque a pessoa que passa por muitos processos seletivos aprende muita coisa, incluindo como se portar, o que falar ou não, quais erros não cometer novamente em outra oportunidade, o que fez corretamente. Isso é igual para estrangeiros e brasileiros. Não adianta reclamar, tudo isso faz parte, você vai ter de gastar muita sola de sapato, muita gasolina ou passagem de ônibus, muito tempo indo para lá e para cá, torrar muitos neurônios, porque, definitivamente, não se consegue emprego da noite para o dia. Você vai se cansar, vai se frustrar, mas não pode desistir jamais, terá que continuar gastando a sola do sapato até conseguir algo, por mais que tudo indique que nunca irá conseguir. Só não vai conseguir se não tentar. Só se tem duas opções, enfiar a cara e lutar até conseguir ou voltar para sua zona de conforto em seu país de origem. Meu marido até que pensou várias vezes em voltar para sua zona de conforto, mas eu nunca o encorajei a pensar nisso, sempre procurei incentivá-lo a pensar a longo prazo, nas infinitas possibilidades que se abririam para ele caso continuasse firme em seu propósito. No fim das contas, ele mesmo reconheceu que eu estava certa e que ele só precisava de uma única chance para deslanchar aqui. E foi exatamente o que aconteceu.

Eu já contei sobre a imensa dificuldade que meu marido teve para lidar com todas as ligações para entrevista que ele recebia neste post aqui, foi um verdadeiro tormento na vida dele e na minha também. Por quê? Porque ele ainda não era fluente em português naquele momento, então imaginem como era no começo, com um português básico. No caso dele, sempre houve muita dificuldade de compreensão ao telefone e também uma boa dose de falta de confiança para lidar com as ligações sozinho. Mas ele teve que dar um jeito e dar seus pulos para conseguir marcar as entrevistas.

Depois de escutar meu marido falando ao telefone em dezenas de ligações, consigo, seguramente, traçar um script para todas elas, a coisa pouco muda. A pessoa liga, pede para falar com fulano de tal, daí dizem que estão ligando da empresa x, para a vaga y e perguntam se ele tem interesse na vaga. Às vezes comentam um pouco sobre a atividade a ser desenvolvida, sobre os benefícios e salários ofertados e então, ou fazem algumas perguntas relativas à experiência profissional, ou sem maiores indagações já marcam direto o dia e a hora da entrevista. Quando dizem que tornarão a ligar, depois de especular um pouco sobre o candidato ao telefone, é pouco provável que liguem, por mais contraditório que possa parecer. E quando perguntam algo, é sempre para falar um pouco sobre sua experiência profissional ou para perguntar se tem alguns conhecimentos específicos, geralmente coisas que são solicitadas para a vaga em questão. Também perguntam bastante sobre nível de conhecimento de inglês, país de origem, qual a situação no país, e coisinhas assim, nada complexo ou difícil. São perguntas básicas que qualquer estrangeiro com um nível de compreensão intermediário na língua portuguesa conseguirá se virar razoavelmente bem para responder e, caso esteja encontrando dificuldades, não há problema nenhum em pedir para a pessoa do outro lado repetir ou falar mais devagar. Muitas das pessoas que ligaram para meu marido até mesmo se ofereceram para conversar e explicar as coisas em inglês, poucas foram as pessoas que foram grosseiras. Para ser mais específica, três pessoas desligaram o telefone na cara dele quando perceberam que ele era estrangeiro, vejam só quanto profissionalismo por parte delas. Sempre tem aquele profissional despreparado e que nem merece estar ocupando tal posição.

Pois bem, se você conseguiu superar uma ligação e conseguiu ter uma entrevista agendada, já é meio caminho andado, uma primeira barreira superada, e significa que a empresa quer conhecer melhor seu perfil profissional, apesar de que isso, a princípio, não significa muita coisa, significa apenas que seu perfil despertou interesse.

O que se deve fazer agora é estudar e se preparar do melhor jeito possível. Se você pensa que é só sentar e esperar pelo dia da entrevista, então você estará assassinando e enterrando sua chance desde já. As entrevistas também seguem um script previsível e é dentro desse script que você terá de se virar nos trinta para mostrar toda sua capacidade e potencial. Isso sem falar na possibilidade de ter de fazer testes, como eu já falei bastante nesta publicação aqui.

Nas primeiras entrevistas que meu marido deu, ele não conseguiu mostrar a que veio, ele apenas mostrou que era um gringo com um português ruim de dar dó e desesperado para conseguir um emprego. Quando seu português começou a dar sinais de estar deixando de ser um atentado aos ouvidos alheios, ele começou a ter noção de que precisava se preparar adequadamente para as entrevistas, em especial após uma delas, em que o analista e o supervisor de recursos humanos de uma empresa acabaram com a raça dele, fazendo perguntas e mais perguntas para as quais meu marido não tinha a mínima noção do que responder. Depois desse episódio, ele fez uma extensa pesquisa na internet sobre as questões mais perguntadas durante entrevistas, fez uma lista delas e respondeu uma a uma em inglês, que depois eu traduzi para o português para ele. Em geral, eles sempre perguntam algumas daquelas questões que ele havia preparado as respostas. E é muito, muito difícil o recrutador brasileiro fazer perguntas esdrúxulas durante os processos seletivos, apesar de ser algo comum no exterior.

Outro ponto importante é sempre ler sobre a empresa na qual você fará a entrevista. Acesso o site dela e leia de cabo a rabo a parte institucional, missão, valores, investimentos, novidades, tudo, isso mostra que a pessoa tem interesse, que dedicou um tempo pesquisando sobre a empresa. Claro que isso, por si só, não te garante emprego nenhum, mas certamente conta pontos, além de encorpar substancialmente sua fala na hora da entrevista.

Além de ter essas questões preparadas e respondidas, você sempre deve estudar em casa antes de toda e qualquer entrevista. Revise as respostas das perguntas frequentes até cansar. Meu marido fica praticando as respostas sozinho por horas até sentir que está seguro para falar. Procure, também, ler artigos sobre o assunto em sites que publiquem dicas sobre carreira e emprego, especialmente erros frequentes durante entrevistas de emprego e coisas assim, até mesmo sobre que tipo de traje vestir. Meu marido errou o traje uma única vez, em sua primeira entrevista, mas logo compramos um traje social para ser usado somente para esse fim, que consistia de calça social risca de giz azul marinho, duas camisas sociais de manga longa – branca e azul – e um par de calçado preto social. Simplesmente não tem erro, a não ser que seja uma entrevista para altos cargos executivos e formais, situação que requer uso de terno e gravata. Como não era nosso caso, o traje que escolhemos estava mais do que bom. Meu marido não aguenta mais nem ver em sua frente seu modelito de entrevista.

Você poderá ler a continuação desse post clicando aqui. Se este post foi útil e esclarecedor, deixe seu comentário, curta e compartilhe! Obrigada!

Dicas de Procura de Emprego para Estrangeiro no Brasil – I

Já relatei, brevemente, no post “Como Conseguir Emprego para Estrangeiro no Brasil“, um pouco sobre como foi que meu marido conseguiu emprego aqui. Não há uma fórmula pronta e mágica para conseguir um emprego, mas sim uma somatória de ações positivas que, juntas, acabam fazendo uma grande diferença no fim. Até então, eu nunca havia trocado ideias com um brasileiro desempregado à procura de emprego para saber se a dificuldade é a mesma que um estrangeiro enfrenta ou não, mas eu realmente acho que não é fácil para ninguém.

As empresas, hoje em dia, querem excelência. Eles procuram, sim, o melhor candidato, o mais preparado, o mais qualificado, e a disputa é acirrada. Aquele que mais atende aos requisitos da vaga, seja brasileiro ou estrangeiro, é quem vai conquistar a vaga. Um dia, meu marido comentou comigo que o gerente da empresa que o contratou naquele que foi seu primeiro emprego no Brasil disse a ele, na segunda rodada de entrevista, que ele só contratava quem fosse melhor que ele mesmo. Mas mesmo meu marido se sentindo elogiado e valorizado, é sempre bom lembrar que, via de regra, sempre há alguém melhor que a gente, não somos únicos, não somos insubstituíveis, há uma disputa acirradíssima em tudo.

O difícil mesmo é achar a vaga perfeita para você. Claro que um estrangeiro precisa se adequar e se esforçar mais que um brasileiro por causa dos pontos deficientes, como a questão da língua e da cultura, por exemplo, mas se houver um empenho grande para suprimir esses pontos, com certeza há, também, uma possibilidade bem grande de se competir de igual para igual com brasileiros.

O calcanhar de aquiles de meu marido sempre foi o português, e também alguns conhecimentos técnicos específicos os quais ele não tinha, foi por isso que ele fez cursos de aprimoramento em sua área de trabalho aqui no Brasil, para aumentar suas chances, o que, de fato, aumentou mesmo, conforme já comentei neste post aquiFoi muito bom e percebemos a diferença que fez não só no currículo, mas também em sua desenvoltura em entrevistas. Acho que metade delas só foi possível por causa daquele curso. Gostamos tanto dos efeitos positivos que o curso proporcionou que, poucos meses depois do término do primeiro, ele já fez um segundo. Foi um cursinho de apenas um dia, e não de 3 meses como o primeiro, mas que foi ótimo e trouxe mais chances de entrevistas. O melhor de tudo foi que, nesse segundo curso, seu aproveitamento foi infinitamente melhor do que no primeiro. Apesar de meu marido ter gravado o áudio para poder escutar em casa mais tarde, acabou nem sendo necessário, pois ele compreendeu tudo muito bem, aproveitou o curso, participou ativamente das atividades e eu fiquei super contente de finalmente perceber uma evolução realmente significativa em seu desempenho no português. Foi por causa desse segundo curso que ele quase conseguiu um emprego naquela oportunidade, apesar de que “quase conseguir” não significa muita coisa, mas é um injeção de ânimo e tanto!

Eu já falei aqui sobre a importância de se ter um currículo bem escrito, por mais simples que seja sua experiência. Já falei, também, sobre a importância de se pesquisar sobre as tendências e demandas do mercado, e também aquelas coisas todas que os profissionais de RH valorizam em um currículo. Lembrem-se que estrangeiro permanente no Brasil não goza de processo seletivo diferenciado, é tudo igual, ele é apenas mais um procurando emprego. Eu acho muito certo isso, estrangeiro não é especial. Meu marido concorda também, então está tudo certo.

Um ponto importante é saber mandar currículo por e-mail. Parece besta falar isso, mas são os detalhes que fazem a diferença. A primeira regra é: só mande seu currículo para vagas que tenham, de fato, seu perfil profissional, ou que, pelo menos, seja parcialmente relacionado. Não adianta nada sair atirando para tudo quanto é lado, mandando currículo para vagas que não têm nada a ver com seu perfil, caso contrário seu currículo será descartado. Tenha foco! Se eles pedem pretensão salarial, não coloque “a combinar”, faça exatamente aquilo que eles pedirem. Se não souber quanto pedir, faça uma pesquisa na internet sobre média salarial para a referida profissão ou cargo, há trocentas delas e logo você terá uma ideia de quanto pedir. Se o título da vaga é, por exemplo, ANALISTA ADMINISTRATIVO, é exatamente isso que deverá estar escrito no campo ASSUNTO de seu e-mail, a não ser que eles peçam que encaminhem o e-mail com outro nome de assunto qualquer. Sempre faça o que é solicitado, é muito simples.

O corpo do texto do e-mail é muito importante também. Só depois de muito tempo mandando currículo com um texto ridículo é que eu aprendi a escrever algo que prestasse. Só me atentei a esse fato quando eu e o marido aprendemos a fazer carta de apresentação. Você não precisa escrever uma carta de apresentação no corpo de texto de seu e-mail. Nós chegamos a fazer isso, mas ficou over demais. O ideal é fazer um resuminho bem conciso, de no máximo dois parágrafos curtinhos, descrevendo muito brevemente sua experiência profissional e suas maiores conquistas. Atente-se aos números, eles são muito importante e chamam muita atenção!

No primeiro e-mail com currículo que eu mandei, eu escrevi algo mais ou menos assim: “Boa tarde, segue em anexo currículo relativo à vaga anunciada na edição de domingo do jornal tal. Atenciosamente, Fulano de Tal“. Quando eu olho para isso, tenho um pouco de vergonha de mim. Que imagem eu passei do meu marido nesse primeiro contato? Aos poucos fui melhorando até que cheguei a um texto mais elaborado, ainda que conciso, e mais personalizado, que eu adapto de acordo com a descrição da vaga e da empresa. Eu não menciono nada sobre conhecimento em língua portuguesa no currículo redigido em português para não dar bandeira, logo de cara, de que se trata de estrangeiro, não coloco nem a nacionalidade do meu marido para que ele não seja sumariamente eliminado só por ser estrangeiro. É melhor ocultar essas coisas em um primeiro momento e depois ver no que vai dar, afinal, a ideia é atrair a atenção do recrutador para que ele se interesse pelo perfil profissional somente e marque uma entrevista.

A última dica do dia é, NÃO TENHA PREGUIÇA!!! Procure emprego todos os dias, faça o seu melhor para conseguir mandar, pelo menos, uma dezena de currículos diariamente. Só para vocês terem uma ideia, eu mandava, em média, 150 currículos por mês! É muita coisa e também muito trabalhoso, são horas e horas no computador repassando a lista de sites de empresas e consultorias de recursos humanos, procurando, procurando, procurando. Quando você está quase desistindo e sucumbindo ao desânimo, do nada você recebe uma ligação para entrevista e o ânimo vem com tudo novamente, afinal, se estão ligando é porque há interesse, se há interesse, é lógico que uma hora pode dar certo. Se não estiverem ligando, é hora de fazer uma avaliação:

  • Estou mandando currículos com frequência diária?
  • Meu currículo está bem elaborado?
  • Meus envios estão de acordo com o perfil da vaga?
  • Estou atualizado aos olhos do mercado de trabalho?

Se a resposta for não para alguma delas, então está na hora de rever suas ações. Em nosso caso, tínhamos certeza que o currículo estava legal, pois meu marido sempre ouvia, durante as entrevistas, que seu currículo estava muito bom, e ainda assim eu sempre estava fazendo alterações e correções, até conseguir uma versão que me agradasse por completo. Faço isso até hoje. Também me esforçava, dia após dia, para mandar o máximo de currículos possíveis.

Então, basicamente, esses foram os quatro pilares para conseguir entrevista de emprego:

  • Currículo bem redigido;
  • Envio diário;
  • Estudo de português;
  • Curso de aprimoramento.

Você poderá ler a continuação desse post clicando aqui.

Se este post foi útil e esclarecedor, deixe seu comentário, curta e compartilhe! Obrigada!

Como Conseguir Emprego para Estrangeiro no Brasil – Relato de Sucesso

Quando publiquei este post, no ano de 2013, foi com muita alegria e intensa sensação de dever cumprido que compartilhei aqui no blog a notícia de que meu marido estrangeiro fora aprovado em não apenas um, mas em dois processos seletivos aqui no Brasil para vagas de emprego em sua área de formação, exatamente o tipo de emprego que queríamos e que tanto lutamos para conquistar! Pudemos, então, avaliar e escolher a melhor oportunidade para ele. Na verdade, não cheguei a ficar surpresa com a notícia, pois foram incontáveis ligações e entrevistas nos meses que precederam sua contratação. Então eu sentia que seria apenas uma questão de tempo até que tudo se encaixasse perfeitamente e até já estava esperando por isso.

A proposta de contratação das empresas aconteceu exatamente 1 ANO e 10 MESES depois da chegada de meu marido ao Brasil. Apenas para recapitular, começamos a nos organizar para a procura por trabalho para ele três meses depois de sua chegada, mas essa procura começou a andar e funcionar bem mesmo quase um ano depois, quando o português do meu marido já estava bem melhor.

Só para vocês terem uma breve ideia de como foi todo o processo, extraí todas as informações abaixo analisando meu caderninho de anotações, que é onde eu anoto todas as vagas para as quais eu enviei o currículo dele, a data e o nome do site de recursos humanos ou empresa:

– CADASTRO DE CURRÍCULO EM MAIS DE 50 SITES DE EMPRESAS DE RECURSOS HUMANOS;

____________________

– TOTAL DE CURRÍCULOS ENVIADOS – 2.120 CURRÍCULOS (sem contabilizar aqueles que meu marido enviou sem me avisar ou anotar no caderninho);

____________________

– Desses 2.120 currículos, o envio se subdividiu da seguinte maneira:

326 ENVIADOS POR E-MAIL, sendo:

  • 57 currículos enviados diretamente para o departamento de RH das empresas;
  • 269 currículos enviados para vagas específicas, anunciadas em jornais e blogs de divulgação de vagas.

1.794 CURRÍCULOS ENVIADOS DIRETAMENTE EM SITES DE RECURSOS HUMANOS.

____________________

– Dentre os sites de recursos humanos, os mais utilizados e conhecidos nacionalmente foram:

  • CATHO – 533 VAGAS;
  • VAGAS.COM – 222 VAGAS;
  • INFOJOBS – 191 VAGAS;

Recebemos ligações de currículos selecionados em todos eles.

____________________

– TOTAL DE VAGAS EM QUE O CURRÍCULO FOI SELECIONADO E QUE LIGARAM PARA O MARIDO:

40 VAGAS

Média de uma ligação/contato para cada 53 currículos enviados.

____________________

– DESTAS 40:

  • 14 vagas foram de contato por telefone e que não evoluíram para entrevista pessoalmente;
  • 24 vagas resultaram em entrevistas pessoalmente;
  • 2 vagas fomos convocados para dinâmicas em grupo.

____________________

– DAS 24 ENTREVISTAS QUE MEU MARIDO DEU PESSOALMENTE:

  • 9 delas foram entrevistas em agências de Recursos Humanos, sem ser selecionado para uma segunda rodada de entrevista na empresa contratante;
  • 3 delas tiveram uma primeira rodada em agências de recursos humanos e segunda rodada nas empresas contratantes;
  • 12 das entrevistas foram diretamente nas empresas, sem que houvesse nenhuma empresa de recursos humanos intermediando.

____________________

E por fim, das 12 entrevistas feitas diretamente nas empresas, meu marido conseguiu DUAS PROPOSTAS de trabalho formais.

____________________

Como vocês puderam perceber, nossa conquista foi fruto de muito esforço e trabalho ao longo de quase dois anos. 

A primeira empresa que deu uma oportunidade para meu marido no Brasil anunciou algumas vagas de emprego nos classificados de um jornal local de grande circulação e também no site da Catho. Mandei o currículo do marido para algumas delas tanto pela Catho como por e-mail, inclusive a vaga para a qual ele foi contratado.

Não sei exatamente qual foi o meio utilizado pela recrutadora para selecionar o currículo dele, se pela Catho ou por e-mail, o que eu sei é que praticamente um mês depois do envio do currículo, ela enviou um e-mail comunicando que ele fora selecionado para participar do processo seletivo para uma das vagas. Na mesma mensagem, pediu para que ele preenchesse uma ficha de inscrição e também que enviasse um currículo atualizado, juntamente com um e-mail confirmando participação no processo seletivo.

Enviamos a resposta prontamente com tudo o que ela havia solicitado. Já no dia seguinte, ela enviou uma nova mensagem explicando como seriam as próximas etapas do processo seletivo, que consistiram de provas online, entrevista individual com a gerente de recursos humanos e supervisores, e entrevista final com o gerente geral da empresa. Na mesma mensagem, ela já passou os links que direcionavam à página das provas online.

Quando viu o link para as provas – uma de inglês e outra de raciocínio lógico/matemática – meu marido cogitou esperar um dia, pelo menos, para poder se preparar, em especial porque era uma prova cronometrada. Mas, de repente, ele decidiu fazer a prova logo de uma vez para se livrar dela o mais rápido possível. O problema é que a prova estava super difícil, até mesmo a de inglês. Eram textos enormes, com um vocabulário bem complexo e com questões puramente de interpretação de texto e apenas uma ou outra questão cobrando gramática. Com certeza quem tinha um inglês bem mais ou menos, ou mesmo intermediário, deve ter tido bastante dificuldade. Para piorar, a prova de raciocínio lógico estava ainda mais difícil. Ele tentou dar o seu melhor solucionando as questões, mas estava tão complicado, que foi necessário chutar algumas das respostas. Ele terminou o teste com aquela sensação de “me ferrei” e nos resignamos pensando que aquela oportunidade estava perdida.

Mas como a vida é cheia de surpresas, um dia e meio depois a recrutadora mandou um e-mail parabenizando-o por ter sido aprovado nos testes e comunicando que ele passara para a próxima fase – entrevista individual – já com hora marcada e tudo. Ficamos perplexos, pois por essa não esperávamos.

A entrevista seria poucos dias depois e ele não se preparou tanto quanto deveria, mas estava tranquilo e confiante, afinal, depois de tantas entrevistas, ele achou que não era tão necessário se preparar exaustivamente, apenas leu sobre a história da empresa, missão, valores e coisas assim. Depois da entrevista, ele me contou que fora entrevistado por três pessoas simultaneamente e que, apesar da pressão de ter mais de uma pessoa entrevistando, ele estava muito satisfeito e animado com seu desempenho. A recrutadora o informou que se ele fosse aprovado naquela etapa, ela ligaria para marcar a entrevista final. E não é que ao fim daquele mesmo dia ela ligou? Ficamos super empolgados, pois até aquele momento nunca acontecera de um processo seletivo avançar tão rápido e tão bem, e a entrevista final seria já no dia seguinte!

Quem o entrevistou na etapa seguinte foi o gerente da planta, o que acabou deixando meu marido um pouco tenso e nervoso. Talvez por isso ele não tenha ficado nada satisfeito com seu próprio desempenho e achou que era o fim para ele. Depois dessa segunda rodada, não houve nenhum retorno da empresa por quase três semanas, então para controlar um pouco a ansiedade ou acabar de vez com a expectativa, resolvemos enviar um e-mail para a RH perguntando qual era o status do processo. Ela levou cinco dias para responder e quando respondeu foi com uma pergunta ao invés de uma resposta. Ela queria saber se ele era cadastrado ou não no conselho regional de sua categoria e também queria saber se o seu diploma de graduação era ou não reconhecido no Brasil.

Apesar da resposta sem resposta, concluímos que havia uma resposta implícita, pois se ele não houvesse sido aprovado, ela simplesmente diria que o processo seletivo havia sido encerrado, sem maiores rodeios. A partir desse momento, a ansiedade começou a aumentar.

Respondemos à mensagem com todo o cuidado para que ela pudesse compreender tudo perfeitamente. Explicamos detalhadamente sobre seu diploma de graduação no exterior, dizendo a ela que o mesmo possuía selos de autenticidade da Embaixada do Brasil no país de origem dele que o reconhecia como legal. Também mencionamos que tínhamos a tradução juramentada do diploma do inglês para o português e explicamos que ele ainda não havia sido revalidado em uma universidade pública no Brasil.

Sobre o registro no respectivo conselho de classe profissional, contamos que ele ainda não tinha pelo fato de seu diploma não ter sido revalidado, mas explicamos que, se o registro no conselho não fosse necessário para a vaga, então ele estaria totalmente apto a exercer a atividade, mesmo sem diploma revalidado, uma vez que não há nenhum impedimento legal quanto a isso. Aproveitamos para reafirmar que ele possuía todos os documentos legais – RNE, CPF e Carteira de Trabalho – todos em situação regular e que ele poderia trabalhar livremente, como outro brasileiro qualquer, desde que o registro no conselho de classe profissional não fosse necessário.

Dez dias depois, ela nos mandou uma mensagem pedindo que enviássemos todos os documentos que tivéssemos, digitalizados, pois eles seriam encaminhados para análise. Foi então que eu comecei acreditar fortemente que havia chances reais de contratação.

Quase três semanas depois, uma outra empresa ofertou trabalho a meu marido e por isso resolvemos ligar para a responsável pelo RH pedindo uma posição, pois meu marido não estava em situação de perder oportunidades. Explicamos sobre a proposta feita e finalmente soubemos que ele fora mesmo aprovado e que eles já dariam início ao processo de contratação do primeiro estrangeiro da história da empresa em minha cidade, pelo menos foi isso que a moça do RH nos contou.

Tudo isso demorou quase dois meses, do primeiro contato por e-mail à última ligação, quando a vaga foi confirmada. Ao longo do processo, praticamente todo o contato foi feito por e-mail, a RH nos ligou apenas uma única vez para confirmar o dia e o horário da entrevista.

Depois de tudo, só consigo pensar e reforçar a minha ideia de que, para conseguir emprego, seja o candidato brasileiro ou estrangeiro, tudo deve casar perfeitamente, do início ao fim, tanto em termos de atendimento pleno dos requisitos da vaga, como ser bem desenvolto ao se comunicar (especialmente em português). Obviamente, o candidato deve possuir, também, capacidade técnica e experiência, além de cativar as pessoas durante todo o processo seletivo, pois simpatia e conexão com o recrutador também contam muito. É muito tentador esperar conseguir emprego por indicação, aliás todo mundo fala que por indicação é infinitamente mais fácil, mas depois de tudo que passamos, eu não concordo, acho mesmo que, se a pessoa estiver cem porcento comprometida e trabalhando para isso incansavelmente, cedo ou tarde terá sucesso. Sem falar que a sensação de se conseguir por méritos próprios é indescritível, sem comparação. Em nosso caso, o resultado foi até mesmo melhor do que o esperado, meu marido conseguiu um cargo de chefia, em uma multinacional, não com o salário mais fantástico do mundo para a categoria, mas que certamente superou nossas expectativas.

O fato é, nós conseguimos, muitos outros conseguiram também, e não há dúvidas que você também pode conseguir, mas é preciso um único passo, que é trabalhar muito para isso, sem desanimar, sem diminuir o ritmo e jamais ficar esperando a ajuda das pessoas, pois isso só atrapalha, definitivamente não ajuda em nada, pelo menos essa é minha opinião pessoal.

No momento, meu marido já está em seu terceiro emprego no Brasil. Dois anos e meio depois de ser contratado por essa empresa, naquele que foi seu primeiro emprego no Brasil, a planta encerrou suas atividades em nossa cidade e foi para outra. Meu marido acabou sendo mandado embora e ficou 6 meses desempregado. Contei tudo isso no post “Desemprego de Estrangeiro no Brasil – I“. Conseguimos, então, outro emprego seguindo o mesmo método de procura que relatei em diversos posts aqui no blog. Entretanto, por problemas de adaptação à cultura da empresa e também com a chefia, ele foi mandado embora mais ou menos 9 meses depois, no auge da crise de desemprego aqui no Brasil. Ainda não contei esse causo aqui no blog, mas contarei em breve. Mas só para adiantar, deu tudo certo de novo no fim, o que me faz acreditar fortemente que nosso método de procura por emprego é realmente eficiente.

Se este post foi útil e esclarecedor, deixe seu comentário, curta e compartilhe! Obrigada!