Adaptação do Estrangeiro à Comida Brasileira

Em nosso caso, não foi, exatamente, adaptação do meu marido à comida brasileira, mas sim um malabarismo de minha parte para dar um jeito nele. No fim das contas, eu é que tive de me adaptar à ele e às suas chatices, pois além de chato, ele é muito exigente.

Eu nunca manjei muito de culinária por pura preguiça e admito isso sem rodeios. Essa história de que fulano ou fulana é um desastre na cozinha comigo não cola, isso não existe! Se a pessoa pegar uma receita de bolo e a seguir à risca, é óbvio que não tem como dar errado, pode não sair um “manjar dos deuses”, mas com certeza algo comível vai sair. Acho que todo mundo deveria saber se virar na cozinha, não é questão de talento, de jeito pra coisa, é necessidade e vontade, mesmo.  Nós precisamos comer e enquanto houver alguém cozinhando e servindo tudo fresquinho e na hora, é muito cômodo, mas e quando não houver? Vai viver de miojo e sanduíche? Vai tomar café, almoçar e jantar fora? Homem e mulher precisam se virar e cozinhar, ao menos, o trivial.

Em meu caso, como sempre tive alguém para cozinhar na casa da minha família, nunca tive muita prática, mas estava certa que, quando começasse a cozinhar frequentemente, não demoraria muito para que eu dependesse menos de receitas e ousasse mais, sem medidas exatas, improvisando combinações de temperos por erro e tentativa. Cozinhar não tem tanto segredo assim (ou talvez tenha, de acordo com os shows e competições de gastronomia que se popularizaram recentemente).

Pois bem. Até a chegada de meu marido, eu era do tipo cozinheira de fim de semana e gostava de fazer apenas junk food, tipo bolo, torta, pavê, trufa, sobremesas geladas, coxinha, pão de batata com catupiry e todas as gordices mais gordas do universo. Já prevendo que meu marido não iria curtir muito nossa comida, resolvi comprar um livro de receitas culinárias do país dele. Detalhe que não experimentei fazer absolutamente nenhuma receita antes de sua chegada.

Logo percebi que ele não seria feliz sem comer as comidas às quais ele estava acostumado. Ele começou a ficar um pouco incomodado e resolveu fazer sua própria comida. Deixei que fizesse, pois eu realmente não tinha a mínima noção de como combinar aqueles temperos todos. A sorte é que ele sabe cozinhar bem.

Como ele é muito preguiçoso, sabiamente começou a me incentivar a tentar minhas primeiras investidas naquela culinária exótica. Eu e minha santa ingenuidade achamos que estaríamos agradando e ajudando na adaptação. Tratei de usar o meu livrinho, pois não queria correr riscos desnecessários e fazer cagada. O começo nunca é muito satisfatório, mas digo que deu ao menos para o gasto. E assim nós fomos, alternando. Inicialmente mais ele cozinhava do que eu. Aí ele foi me dando dicas, ensinando-me a misturar todos aqueles temperos e, quando me dei conta, já estava cozinhando mais vezes que ele, lamentavelmente. Sim, porque não gosto dos afazeres domésticos e a maioria das vezes cozinhava somente para ele, por que ele não cozinhava então? De qualquer forma, depois de todo esse tempo em que ele está aqui, posso dizer que hoje eu manjo da coisa e há muitos pratos que eu faço muito melhor que ele. Acabei, então, superando o mestre, mas quisera eu nunca ter superado, pois acabei criando um monstrinho, ele nunca quer cozinhar, nem eu, aí fica aquele impasse. Tivemos várias discussões por causa disso, porque não sou obrigada e nem sou empregada de ninguém. Depois de muito stress, ele forçadamente entendeu meu recado e mudou um pouco sua atitude, mas vez ou outra ainda tenta resistir. 

Na prática, a coisa funciona assim, no almoço ele come o que tem, se não tem, ele tenta se virar. Antes até encarava o trivial arroz e feijão, mas logo percebeu que não gosta dessa combinação, então geralmente opta por comer uma salada acompanhada por frango ou ovo. Mas da janta não tem escapatória, é a comilança de lá que ele quer e tudo fresquinho, nada de requentar comida do dia anterior, ele detesta. Acho graça quando escuto essa mulherada de asiático fazendo mil planos, querendo aprender a fazer as comilanças de lá só para agradar. Atraso de vida, juro! Não quero dizer que não é legal aprender e fazer essa gentileza, agradar o amado, mas cuidado para não se escravizar e fazer do agrado uma obrigação. Foi o que aconteceu comigo e foi dureza cortar essa folga toda. Não passará!

Então, comer a comida daqui até que ele come, mas não sem antes fazer aquela cara de desânimo, chega a ser cômico. Eu nem tento mais incentivá-lo a experimentar coisas novas, porque sei que é difícil. Aos poucos, muito lentamente, ele está inserindo um ou outro hábito novo, mas é uma luta.

Se este post foi útil e esclarecedor, deixe seu comentário, curta e compartilhe! Obrigada!