Programa PEC-PG – Estrangeiro Sendo Pago para Estudar no Brasil

Muitos brasileirxs que se relacionam com estrangeiros quebram a cabeça pensando em soluções para trazer o seu companheiro para o Brasil com segurança, isto é, sem que haja excesso de sofrimento para se estabelecer em definitivo no país, sendo o fator emprego o aspecto mais preocupante. Quem acompanha o blog desde o início sabe bem como foi sofrido para meu marido conseguir seu primeiro emprego no Brasil. Foram quase dois anos de muita luta e algumas lágrimas também, e tudo por causa do português horroroso dele, mas felizmente conseguimos, como já contei no post “Como Conseguir Emprego para Estrangeiro no Brasil – Relato de Sucesso“.

Pois bem, então como sofrer menos e ser mais bem sucedido na mudança para o Brasil? Além de se esmerar no estudo do português, coisa que eu já falei mil vezes por aqui, mas não custa repetir, é preciso procurar alternativas, e não simplesmente esperar para ver no que vai dar. Uma opção é estudar e ser pago para isso.

Desde o início de meu relacionamento com meu marido estrangeiro, a coisa que eu mais fiz foi escarafunchar sites oficiais, tais como o da Polícia Federal, Ministérios diversos, etc, e essas escarafunchadas, além de evitar que fizéssemos algumas cagadas, sempre nos trazia algumas descobertas, uma delas foi sobre a existência do DCE – Divisão de Temas Educacionais do Ministério das Relações Exteriores. O fato é que eu descobri um pouco tarde demais, quando meu marido já era permanente no país há muito tempo e estava quase completando seu primeiro aniversário de trabalho no Brasil, mas sei que a informação pode ser útil para quem ainda não se estabeleceu no país e ainda está na fase de planejamento da mudança.

Na seção de Perguntas Frequentes do Itamaraty, achei a seguinte questão e dela descobri a existência dessa Divisão de Temas Educacionais:
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Sou formado em curso X e gostaria de saber se haveria algum programa de pós-graduação no Brasil.

O Ministério das Relações Exteriores administra, em parceria com o Ministério da Educação e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o Programa de Convênio para Cursos de Pós-Graduação (PEC-PG), oferecido a estudantes de países em desenvolvimento com os quais o Brasil tenha acordo educacional, cultural ou científico e tecnológico. O Programa consiste em bolsa de estudo equivalente à oferecida a estudantes brasileiros de pós-graduação.

Interessados no PEC-PG precisam:

1) possuir o Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros ­Celpe-Bras (que é o exame oficial do Ministério da Educação brasileiro para certificar a habilidade em comunicação oral e escrita no idioma português falado no Brasil, cujas provas no exterior são realizadas nos Centros Culturais Brasileiros (CCBs) em todo o mundo); ter concluído curso de graduação ou mestrado; bem como ter projeto de pesquisa aceito por uma universidade brasileira. A inscrição para o Programa acontece todo ano, entre maio e julho – e deve ser feita online, de acordo com as exigências do Edital vigente.

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E daí que o tal Programa de Estudantes – Convênio de Pós-Graduação, mais conhecido como PEC-PG, tem por objetivo possibilitar cidadãos estrangeiros de países em desenvolvimento a realização de estudos de pós-graduação em Instituição de Ensino Superior brasileira. O PEC-PG constitui atividade de cooperação educacional exercida exclusivamente com os países os quais o Brasil mantém Acordo de Cooperação Cultural e Educacional. É também apoiado, conjuntamente, pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq; pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES  e pela Divisão de Temas Educacionais – DCE,  do Ministério das Relações Exteriores – MRE. Concede bolsas de Mestrado (até 24 meses – Bolsa do CNPq) e Doutorado (até 48 meses – Bolsa da CAPES), para estrangeiros que venham a realizar pós-graduação no Brasil. Os valores das bolsas aos estrangeiros são equivalentes aos pagos a estudantes brasileiros. Outros benefícios são Isenção de taxas escolares, as quais são custeadas de acordo com as normas e critérios das agências, e passagem aérea de retorno aos bolsistas que defenderem Dissertação/Tese. A chamada é disponibilizada nas páginas do CNPq, da CAPES e do MRE e as submissões das candidaturas são realizadas via sistema online do CNPq ou da CAPES. Essas bolsas contemplam todas as áreas de conhecimento nas quais existam cursos de mestrado e  doutorado recomendados ou reconhecidos pela CAPES com conceito igual ou superior a 03 (três) e que emitam diplomas de validade nacional.

Nada mau, não é mesmo? E já tem uma porção de estrangeiros nesses termos no Brasil! A bolsa de estudo oferecida não é a mais atrativa, mas também não é de se desprezar.

Copio abaixo as informações que achei no site da Capes referente à seleção de 2013.

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OBJETIVO DO PROGRAMA:

Concessão de bolsas de doutorado visando o aumento da qualificação de professores universitários, pesquisadores, profissionais e graduados do ensino superior dos países em desenvolvimento com os quais o Brasil mantém Acordo de Cooperação Educacional, Cultural ou de Ciência e Tecnologia. Essas bolsas serão concedidas em todas as áreas de conhecimento nas quais existam cursos de doutorado recomendados ou reconhecidos pela CAPES com conceito igual ou superior a 03 (três) que emitam diplomas de validade nacional.


BENEFÍCIOS:

  • bolsa de estudo de doutorado mensal no valor de R$ 2.200,00 por até 48 meses;
  • passagem aérea de retorno.

QUEM PODE PARTICIPAR:

Em 2013, poderá participar candidato para bolsas de doutorado que:

  • Seja cidadão de país participante do Programa;
  • Não seja cidadão brasileiro, ainda que binacional, nem possua genitor ou genitora brasileiro;
  • Não possua visto permanente, visto diplomático, visto MERCOSUL, visto de turista ou visto que autorize o exercício de atividade remunerada no Brasil;
  • Tenha curso de graduação ou mestrado completo em uma das áreas do conhecimento científico;
  • Seja aceito por IES brasileira, pública ou privada, que emita diploma de validade nacional, em curso de doutorado recomendado ou reconhecido pela CAPES, com conceito igual ou superior a 03 (três).

NOVAS EXIGÊNCIAS:

  • Não tenha iniciado o curso de doutorado pretendido;
  • Não tenha formação anterior no doutorado;
  • Seja portador de documento que certifique a proficiência em língua portuguesa – para qualquer nacionalidade;
  • Tenha permanecido em seu país de origem ou residência por, pelo menos, dois anos após ter obtido o diploma brasileiro, no caso de ex-estudante graduado pelo Programa de Estudantes-Convênio de Graduação – PEC-G;
  • Tenha permanecido em seu país de origem ou residência por, pelo menos, dois anos após ter obtido o diploma brasileiro, no caso de candidato que tenha recebido bolsa de estudos e pesquisa de agência brasileira de fomento para cursar graduação no Brasil e deseje inscrever-se para doutorado direto;
  • Tenha permanecido em seu país de origem ou residência por, pelo menos, dois anos após ter obtido o título de mestre (profissional ou acadêmico), no caso de candidato que tenha recebido bolsa de estudos e pesquisa de agência brasileira de fomento.

PAÍSES PARTICIPANTES DO PEC-PG:

África, Ásia e Oceania.

América Latina e Caribe

África do Sul Antígua – Barbuda
Angola Argentina
Argélia Barbados
Benin Bolívia
Cabo Verde Chile
Camarões Colômbia
China Costa Rica
Costa do Marfim Cuba
Egito El Salvador
Gabão Equador
Gana Guatemala
Índia Guiana
Líbano Haiti
Mali Honduras
Marrocos Jamaica
Moçambique México
Namíbia Nicarágua
Nigéria Panamá
Paquistão Paraguai
Quênia Peru
República Democrática do Congo República Dominicana
República do Congo Suriname
São Tomé e Príncipe Trinidad e Tobago
Senegal Uruguai
Síria Venezuela
Tailândia  
Tanzânia  
Timor Leste  
Togo  
Tunísia  

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Outras informações podem ser encontradas no site do DCEMRE:

O Programa de Estudantes-Convênio de Pós-Graduação (PEC-PG), criado oficialmente em 1981, oferece bolsas de estudo para nacionais de países em desenvolvimento com os quais o Brasil possui acordo de cooperação cultural e/ou educacional, para formação em cursos de pós-graduação strictu sensu (mestrado e doutorado) em Instituições de Ensino Superior (IES) brasileiras.

São oferecidos aos contemplados os seguintes benefícios:

  • Vagas em IES brasileiras recomendadas pela Capes, sem custos de matrícula;
  • Bolsa mensal no mesmo valor que a oferecida aos estudantes brasileiros, a saber: R$1500,00 para mestrado, com duração máxima de 24 meses, e R$2200,00 para doutorado, com duração máxima de 48 meses; e
  • passagem aérea de retorno ao país do estudante estrangeiro.

O PEC-PG é administrado em parceria por três órgãos:

  • Pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE), por meio da Divisão de Temas Educacionais (DCE), a quem cabe a divulgação do Programa no exterior e o pagamento das passagens de retorno dos estudantes;
  • pelo Ministério da Educação (MEC), por meio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a quem cabe a seleção e o pagamento das bolsas de doutorado para estudantes de todos os países participantes e de mestrado para estudantes do Timor-Leste; e
  • pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), por meio do Conselho Nacional para Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a quem cabe a seleção e o pagamento das bolsas de mestrado para estudantes de todos os países participantes, com exceção de Timor-Leste.

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Para maiores informações sobre o programa, clique aqui.

Outra possibilidade super interessante é o Programa de Ensino Profissional Marítimo para Estrangeiros:

“O Programa de Ensino Profissional Marítimo para Estrangeiros (PEPME), oferecido pelo Estado Maior da Armada (EMA), destina-se à formação e ao aperfeiçoamento de Oficiais da Marinha Mercante provenientes de países em desenvolvimento com os quais o Brasil mantém acordos culturais ou educacionais.

No âmbito do PEPME, o EMA oferece, anualmente, os seguintes cursos:

  • Curso de Formação de Oficial de Náutica da Marinha Mercante
  • Curso de Formação de Oficial de Máquinas da Marinha Mercante
  • Curso de Aperfeiçoamento para Oficiais de Náutica
  • Curso de Aperfeiçoamento para Oficiais de Máquinas

O pedido de vaga para participação nos cursos oferecidos pelo PEPME deverá ser feito pelo órgão oficial do Governo do país amigo à Representação Diplomática do Brasil, dentro do prazo estipulado para cada um dos cursos.

Os representantes diplomáticos somente encaminharão à DCE as candidaturas daqueles que estejam com a documentação completa e corretamente preenchida. Posteriormente, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) encaminhará ao Estado-Maior da Armada (EMA) a documentação relativa às candidaturas.

A confirmação, pelo Governo brasileiro, das vagas concedidas para esses cursos de aperfeiçoamento, será comunicada ao governo solicitante, no prazo estabelecido, pela Representação Diplomática do Brasil.

O PEPME e o PACCD são oferecidos aos seguintes países:

  1. Angola
  2. Argentina
  3. Barbados
  4. Bolívia
  5. Cabo Verde
  6. Chile
  7. Colômbia
  8. Costa Rica
  9. Equador
  10. Gabão
  11. Guiana
  12. Guiné-Bissau
  13. Honduras
  14. Moçambique
  15. Panamá
  16. Paraguai
  17. Peru
  18. República Dominicana
  19. São Tomé
  20. Suriname
  21. Trinidad e Tobago
  22. Uruguai
  23. Venezuela

Mais informações sobre os cursos constantes do PEPME e do PACCD, tais como: currículos, formulários etc, podem ser obtidas pelos órgãos oficiais dos governos dos países amigos junto à respectiva Representação Diplomática do Brasil.

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Para saber mais sobre orientações sobre vistos e documentação para estudantes estrangeiros, clique aqui.

Para ler depoimentos de quem estudou no Brasil, clique aqui.

Para outras perguntas frequentes, clique aqui.

E, claro, também é preciso muita vontade de estudar de fato e não apenas cavar uma oportunidade para vir morar no país.

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Estudo como Solução Alternativa para o Desemprego de Estrangeiro no Brasil

Certa vez, quando ainda estávamos na luta pela primeira oportunidade de emprego para meu marido estrangeiro aqui no Brasil, começamos a pensar em soluções alternativas, uma vez que, àquela altura, ainda não tínhamos uma visão muito clara sobre o que aconteceria no futuro. Podia ser que as coisas se ajustassem e dessem certo logo, tanto quanto poderiam se estender indeterminadamente e meu marido acabasse fazendo aniversário de desemprego por um bom tempo.

Como nem eu, muito menos ele, queríamos celebrar esse tipo de “bodas”, começamos a estudar outras possibilidades. O fato era, não havia emprego em mãos, continuaríamos procurando até encontrar, mas só procurar emprego não nos parecia suficiente, o que mais poderia ser feito, então? Ele já tinha feito dois cursos de aperfeiçoamento, como já comentei aqui, então nosso primeiro pensamento foi investir mais dinheiro em mais desses cursos. Um dia, enquanto procurava cursos com meu marido, ocorreu-me que, ao invés de ficar fazendo mil cursinhos de aprimoramento, ele deveria tentar dar um passo maior e voltar à universidade.

A lógica por trás foi a seguinte: um estrangeiro, permanente no Brasil, pode até não conseguir um emprego, mas já que estava aqui mesmo, então que utilizasse sua permanência da melhor forma possível. Como? Estudando. Tanta gente querendo ir para o exterior para estudar, crescer e fazer alguma coisa de realmente relevante, já que meu marido estava aqui, então que fizesse algo útil, especialmente considerando-se uma situação hipotética em que tudo desse errado e tivéssemos que retornar ao país de meu marido. Caso perguntassem lá no país dele “o que você ficou fazendo no exterior por mais de 2 anos?“, a resposta certamente não seria “estava esperando um emprego cair do céu, não deu para mim“, mas sim “estava estudando, investindo em meu futuro e em minha carreira“.

Meu marido e eu conversamos e ele também estava com a mesma ideia na cabeça. Concluímos que, apesar de ser um passo grande, ele estava preparado para isso, pois já tinha uma ideia clara sobre qual área seguir. Ademais, seu português já estava bom o suficiente para dar conta do recado. Então, naquele mesmo mês, começamos a procurar cursos de especialização e mestrado nos sites das melhores universidades, tanto federal/estadual quanto particular. Acabamos descartando o mestrado, pois estudos stricto sensu são muito mais maçantes e específicos e meu marido achou que não era sua hora ainda. Na verdade, ele não pensa em fazer mestrado tão cedo, então só sobrou a especialização, mesmo, como opção. Com isso, nos focamos no tipo de curso que ele queria, o qual achamos em duas universidades, ambas particulares, de excelente reputação e muito tradicionais. Infelizmente, a universidade federal de meu estado não oferta curso de especialização na área em que ele queria, então escolhemos a particular mesmo.

Quando as inscrições foram abertas, fizemos tudo pelo site, sem nenhum problema. Claro que antes de pagar a inscrição, informei-me sobre o procedimento para estrangeiro. Tudo normal, a secretária apenas perguntou se o visto dele era de estudante, pois o procedimento seria diferente, mas não era o caso. Como ele é permanente, ela só perguntou se ele tinha CPF, RG e diploma de graduação com os selos da embaixada e tradução juramentada para o português. Tinha. Então estava tudo certo, era só aguardar a confirmação do curso. Com o curso confirmado, lá foi meu marido para a especialização. Até então, ele não sabia que já tinha conseguido emprego, mas mesmo assim ele estava super feliz e empolgado, acho que nem ele pensou que faria uma pós-graduação tão logo.

Como eu não confio em português de gringo, fiquei ressabiada. Logo que começaram as aulas, comecei a perguntar se os professores já haviam passado alguma atividade, ao que ele me disse que estava tudo bem. Não me convenci, algo me dizia que estava tudo muito bem para ser verdade. Até que um dia descobri que ele nem havia acessado a página das disciplinas do curso na intranet. Quase tive um treco. Na verdade, havia um problema com sua senha de acesso. Depois de resolvido, quando acessei o sistema, vi que havia algumas atividades que ele nem sabia que tinha que fazer e com prazo de entrega vencido! Até ele se assustou, tadinho, fiquei com dó, pois ele entendeu que tinha que preparar apenas um seminário, quando na verdade já tinha fichamentos e resenhas para entregar. Dei uma mão para ele e entregamos as atividades atrasadas. Claro que justificamos para a professora e ficou tudo bem, mas passamos um sufoco!

A questão central é, estudo é a solução para muitos problemas, sempre foi e sempre será o melhor investimento. Sei que não é barato e, antes mesmo da notícia do emprego, discutimos sobre como ajustaríamos a mensalidade da especialização às nossas contas, foi quando cogitamos que meu marido desse aulas de inglês. Não foi preciso, mas se fosse, seria assim que iríamos nos virar.

E se a pessoa não tem muito estudo, o que fazer? Complete os estudos aqui, oras, há milhares de opções! Uma vez que o português esteja bom o suficiente, o negócio é se jogar de cabeça. Sei que é difícil fazer um vestibular tradicional, pois tem de estudar história e geografia do Brasil, por exemplo, mas há cursos técnicos, faculdades com vestibular facilitado, há várias opções e para todos os bolsos, é só procurar. Estudando em um instituto ou faculdade no Brasil e que seja reconhecido pelo MEC, são muitas as possibilidades que se abrem, inclusive para fazer estágio. A pessoa só tem a ganhar, além de garantir que muitas outras portas se abram no futuro. Sem dúvida alguma é a melhor solução alternativa que alguém pode ter.

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Cursos de Aperfeiçoamento Profissional para Estrangeiros no Brasil

Após poucos meses mandando currículos para meu marido estrangeiro e já bem mais habituada aos termos técnicos e à atividade exercida por ele, comecei a perceber que, apesar da sua experiência, estava faltando alguns conhecimentos bem específicos que certamente tornariam seu currículo mais robusto e atraente no mercado de trabalho brasileiro.

Ao procurar determinadas vagas, comecei a fazer algumas anotações sobre os conhecimentos mais frequentemente exigidos e que estavam ausentes do currículo dele. A princípio não dei muita importância, apenas anotei por anotar para mais tarde analisar o que aquilo tudo poderia colaborar no seu futuro profissional, talvez quando o português dele estivesse bom o suficiente para frequentar cursos e realmente tirar proveito das aulas.

Já falei várias vezes da preguiça inicial do meu marido em estudar português com afinco e que por um bom tempo ele levou o estudo nas coxas. Bom, ao lembrar de um episódio específico que ocorreu no passado, acabei decidindo o que fazer com ele, matando vários coelhos com uma cajadada só, em uma situação em que ele ocupasse o tempo e a mente, desenvolvesse o português, fizesse contatos e que se aperfeiçoasse profissionalmente.

O episódio inspirador, que ocorreu antes mesmo da chegada dele ao Brasil, foi o seguinte: certa vez, levei minha mãe ao médico e, ao invés de esperá-la na recepção do consultório, preferi esperar na praça em frente, sentada tranquilamente em um banquinho. Logo uma moça muito loira e bonita me abordou, estava fazendo uma pesquisa, ou algo assim, nem lembro direito o que ela queria, só sei que respondendo a algumas perguntas, eu estaria concorrendo a um prêmio. Já estava quase despachando a pobre da moça, achando que era “golpe”, quando notei um leve sotaque, bem no finzinho das palavras, mas uma coisa muito leve mesmo. Até pensei que a moça era de outro estado. Então, disse a ela “você não é daqui, não é mesmo?”. A resposta foi surpreendente, pois ela disse que era finlandesa!!! Fiquei embasbacada! Seu português era perfeito, gramaticalmente impecável, infinitamente melhor que o português de muitos brasileiros e o leve sotaque dava até um certo charme! Claro que não perdi a oportunidade de encher a pobre da finlandesa de perguntas, atrapalhando seu trabalho na cara dura!

Minha primeira pergunta foi “quanto tempo demorou para falar português assim?”. Ela me contou que levou mais ou menos um ano e meio. Também me contou que seu marido era brasileiro e que veio morar aqui por causa dele. Perguntei, também, como ela conseguiu aprender tão rápido e impecavelmente daquele jeito e ela me disse que precisava estudar (talvez pós-graduação, uma vez que não era tão novinha) e que teve que dar um jeito e se virar. Imagino que, obviamente, ao se expor ao idioma, sozinha, sem ninguém auxiliando, em um ambiente em que pouquíssimos dominam outro idioma que não seja o português, é o único jeito de fazer a pessoa progredir mais rapidamente no idioma.

Então, pensei que, mandando o marido para cursos de aperfeiçoamento, seria uma mão na roda. Peguei aquela listinha de conhecimentos específicos que eu tinha anotada e comecei a procurar os cursos no Google. Nem demorei muito para achar, uma vez que era começo de ano e geralmente, nessa época, há muitas ofertas de cursos.

Não perdi meu tempo pesquisando cursos de pós-graduação à época, porque era um investimento muito alto para alguém que ainda estava em fase de aprendizado no idioma. Procurei cursos em que não houvesse prova, trabalho, nem nada valendo nota, mas apenas atividades em sala e a presença nas aulas para garantir o certificado.

Como é que eu fiz para que ele aproveitasse o conteúdo do curso cem porcento? Simples, comprei um mini-gravador. Todos os cursos de aperfeiçoamento que ele frequentou naquela época foram integralmente gravados. Meu objetivo, inicialmente, era transcrever todas as aulas, até transcrevi algumas, mas acabei desistindo depois de um tempo. Lógico que é bem trabalhoso fazer isso, mas tenho prática, pois eventualmente faço degravação freelance. De qualquer forma, pensei que ele teria dois benefícios diretos ao ler todo o conteúdo transcrito: aprimorar o português coloquial e técnico ao mesmo tempo e, claro, agregar conhecimento e, de quebra, ganhar certificado para isso.

O primeiro curso de aperfeiçoamento que meu marido fez foi, basicamente, um divisor de águas e ele finalmente começou a acordar para o mundo e para a vida. O curso duraria três meses, com aulas todas as terças e quintas à noite, o que foi muito bom para ocupar o tempo e a mente dele naquela ocasião, além de começar a trazer, de fato, boas oportunidades de entrevista, pois foi um curso que definitivamente fez diferença no currículo dele. Praticamente todos os colegas dele eram do mesmo ramo de atuação e ele pôde trocar muitas ideias com todos, fazer contatos importantes e finalmente praticar o português com estranhos. Resumindo história, foi um avanço e tanto!

Antes do curso começar fomos até o instituto para conversar com o responsável, pois estávamos um pouco preocupados, o português do marido ainda estava fraco na ocasião, a conversação e a compreensão durante uma conversa ainda não estavam nada bons. Daí o professor explicou que faria uso de apostila e exibição de slides e nós também pedimos autorização para gravar as aulas, o que ele autorizou sem problemas.

Acompanhei o marido em seu primeiro dia de curso apenas para me certificar de que não haveria maiores problemas e foi super tranquilo, havia participantes que falavam um pouco de inglês e que poderiam dar uma ajuda caso houvesse necessidade. E, de fato, ao longo do curso eles tiveram boa vontade em ajudá-lo nas atividades e dinâmicas em grupo.

Logo percebi uma grande diferença no comportamento do marido, ele estava se esforçando mais nos estudos de português para poder ter um desempenho melhor no curso e, principalmente, poder conversar direito com os colegas e fazer contatos. Ele não era o único estrangeiro do curso, havia um rapaz argentino também. Ele falava com bastante sotaque, mas não teve maiores problemas para entender e se fazer entender durante as aulas.

A única colaboração que o professor do curso deu, em termos de ajuda na procura por emprego, foi fazer pequenas correções no currículo e só. Ficamos um pouco decepcionados com a falta de boa vontade dele, pois para nos convencer a investir no curso, prometeu-nos que encaminharia ou indicaria o marido em várias empresas as quais ele prestava consultoria. Mas o que se há de fazer? A sorte é que no último mês do curso, outro professor veio dar aula em um módulo específico e ele foi muito bacana. Por causa dele, meu marido teve a oportunidade de fazer duas entrevistas em uma empresa de alimentos bem conhecida nacionalmente. Eu acredito que não tenha dado certo, porque não era exatamente a área que meu marido tinha experiência, mas só pelo fato de o rapaz se prontificar a ajudar já nos deixou imensamente feliz.

Por causa desse curso, meu marido começou a receber mais ligações para entrevistas. Quando eu falo em quantidade de ligações, não me refiro a quantidade por semana, mas sim por mês. Até dezembro de 2012, ele recebia, em média, duas ligações para entrevista por mês. Às vezes havia mês em que ele não recebia chamada nenhuma, outras vezes ele recebia umas três ou quatro chamadas. Parece não ser nada uma média de duas ligações por mês, mas considerando ser estrangeiro e não ter português fluente, não é nada mau. Aliás, nem para brasileiro esse número é ruim. Se você for pensar sob a perspectiva de que se manda centenas de currículos por mês para receber uma média de apenas duas ligações, é claro que não é um panorama muito animador, mas é assim que a coisa funciona. O fato de o perfil e o currículo dele ter despertado interesse foi um sinal claro de que estávamos indo pelo caminho certo.

Um aspecto interessante é que cursos de aperfeiçoamento aumentam o leque de possibilidades de envio de currículo. Quanto mais vagas você aplicar, mais chances de receber ligações. Então, definitivamente o curso foi uma escolha acertada, a maior exposição ao idioma, em uma situação em que ele se encontrava sozinho em meio a estranhos o estimulou a caprichar mais no estudo de português. Também foi super importante em termos de efeito psicológico, pois ele viu que estudar é a solução, além de ser um investimento com efeitos duradouros, e que ele não precisava ficar se martirizando por ainda não ter um emprego. Claro que esse era o objetivo principal, trabalhar, mas estudar também era uma ótima opção.

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