Preconceito de Estrangeiro Contra o Brasil

O ponto de partida deste post é baseado em relatos de estrangeiros sobre o Brasil, mais especificamente o relato negativo. Qualquer pessoa que tenha a oportunidade de morar em um país estrangeiro, qualquer que seja, muito provavelmente terá uma lista de coisas daquilo que gosta e que desgosta sobre o país em que vive como expatriado, isso é absolutamente normal e até mesmo esperado. Meu marido, por exemplo, gosta e desgosta de várias coisas no Brasil, o mesmo acontece comigo em relação ao país dele. E mesmo eu, enquanto brasileira, gosto e desgosto de muitas coisas de nosso próprio país. Até aqui tudo bem. Se meu marido falar que ele detesta futebol, samba e caipirinha, beleza, não ficarei ofendida, vou até gostar. Se ele assistir no noticiário às barbaridades nossas de cada dia e criticá-las, ora, o que há de errado nisso? Nada! Ele é estrangeiro, mas não é burro nem muito menos cego. Não é pelo fato de ser estrangeiro que ele deve ser indiferente às coisas e acontecimentos relativos ao país em que ele está vivendo. Como ele vive aqui permanentemente, estará sempre passível a sofrer influência direta de tudo em sua própria vida, e inclua aqui todas as esferas possíveis, seja economia, saúde, violência, educação, transporte e tudo o mais que se possa imaginar. Então, como ser indiferente e alheio?

O que eu quero dizer é que eu acho digno e genuíno que eles, os estrangeiros, tenham opiniões sobre o país, sejam elas positivas ou negativas, não é um crime reclamar ou não gostar de muitas coisas no Brasil. Então, qual é problema? O radicalismo, aqueles que desprezam tudo e todos, desfazem da cultura, debocham das pessoas, reclamam de absolutamente tudo, não sabem reconhecer aquilo que é bom, acham que tudo que é do Brasil é uma grande merda, e que têm como ideal de vida a experiência e cultura de certos países no exterior, sendo os Estados Unidos seu ideal máximo, o ápice de realização de uma vida.

Não sei o motivo pelo qual tais pessoas se encontram ligadas ao Brasil, qual é o motivo que os trouxe a morar aqui, o que eu sei é que, quando alguém se propõe a viver no exterior, ela tem de se despir de seus preconceitos e, principalmente, deixar a comparação entre os países de lado, caso contrário a estadia estará seriamente prejudicada.

Nós, brasileiros, temos consciência de que, fora do Brasil, há muitos países infinitamente mais avançados e desenvolvidos que o nosso, que oferecem mais qualidade de vida a seus cidadãos e tudo o mais. Na verdade, sempre haverá alguém melhor que a gente, mas isso não significa dizer que o que quer que tenhamos aqui é ruim ou deplorável, que devemos nos envergonhar da nossa cultura uma vez que há outras “melhores”. Aliás, o conceito de “melhor” é bem relativo, não é mesmo?

A grande questão é, quem disse que o modelo de vida do país x ou y é o melhor? Uma coisa é oferecer melhores condições de vida, outra é se vender como o melhor, como o único estilo de vida socialmente aceitável e o ideal para o resto da humanidade. Tem muito gringo aqui que pensa assim, e não por coincidência são, em sua maioria, de países “de primeiro mundo”.

É nesse sentido que entra a minha reflexão sobre estrangeiros e também brasileiros que são cegados por um determinado estilo de vida. Cansei de ver brasileiro falando horrores do Brasil em fóruns públicos, dizendo que têm vergonha do Brasil e que lugar bom mesmo é Estados Unidos, Inglaterra, que aqui não tem nada que preste, que somos um bando de animais selvagens, que nossas cidades são um lixo e acrescente aqui tudo de ruim que você possa imaginar, eles já falaram pior, muito pior. Eu penso o seguinte, somos o que somos, somos frutos da nossa cultura e temos nosso próprio ritmo de evoluir, e evoluímos, ainda que aos poucos. Não se pode esperar, de qualquer nação que seja, que se tenha um mesmo tipo de comportamento e desenvolvimento, pois isso jamais irá acontecer. Ainda que o Brasil se torne um país de primeiro mundo, com melhores condições de vida e mais igualitário, jamais seremos como americanos ou europeus, simplesmente porque somos únicos. O que seria do mundo se fôssemos todos iguais?

Quero esclarecer que não tenho preconceitos contra países desenvolvidos, bem como não sofro da síndrome de inferioridade, eu reconheço as qualidades deles e acredito mesmo que eles sirvam de modelo para muitas coisas que ainda precisamos melhorar, mas isso não se aplica a muitos de nossos aspectos culturais. Somos parte de um país tão rico culturalmente, por que achar que o estilo de vida dos outros é o único legítimo e o melhor? Não existe melhor e pior nesse sentido, há o diferente e desde que o diferente não seja ofensivo e que não restrinja suas liberdades e direitos como humano digno daquilo que há de melhor, então é válido.

Então, se uma família gringo-brasileira conclui que os Estados Unidos, por exemplo, oferece melhores condições de vida e oportunidades para eles, tudo bem, mas isso não significa que o Brasil deva ser menosprezado por eles, nem rebaixado. Infelizmente vejo muito isso, há muita gente que não consegue entender que isso é ridículo. Tenho um exemplo. Certa vez, apareceu um termo de busca que direcionou o leitor aqui para o blog que dizia o seguinte:

“Meu marido é estrangeiro e vive comigo no Brasil, mas ele sempre fala mal do Brasil e por isso temos brigado muito”

Complicado, não? Sem dúvida é um dos grandes desafios que um casal gringo-brasileiro tem de enfrentar, dentre tantas outras coisas. Acho que vale a pena refletir um pouco mais sobre isso.

Meu marido, como todos sabem, também é estrangeiro e vivemos no Brasil, mas ele raramente fala mal daqui e nunca brigamos por causa disso. Ele não fala mal por um motivo bem simples, ele está quase plenamente satisfeito com a vida que levamos aqui, simples assim. Nem tenho como alongar muito, nem justificar de mil maneiras, pois o fato é que não há reclamações. Eventualmente ele reclama dos preços das coisas, pois acha tudo muito caro, em especial  se comparado ao preço das coisas no país dele, mas como é tudo muito caro mesmo, nem tem o que contestar, eu mesma faço coro à sua reclamação. Ele também reclama da comida brasileira por ser acostumado a comidas condimentadas, mas nada que possa provocar problemas de relacionamento.

Não acho que levei sorte, porque meu marido é reclamão por natureza, a grande questão é, ele vem de um país um pouco mais problemático que o Brasil, então é natural que ele se sinta bem e confortável aqui. Em termos culturais também não há stress, talvez ele não curta algumas coisas, mas nada que interfira em nosso relacionamento propriamente dito. O Brasil e o estilo de vida que levamos aqui não são motivos fortes o suficiente para desestabilizar nosso relacionamento.

O que eu percebo em diversos fóruns de discussão em que os participantes são, em sua maioria, estrangeiros vivendo no Brasil, é que grande parte dos reclamões vem de países mais desenvolvidos ou de países em que a língua nativa é a inglesa. Não estou afirmando nada, estou apenas compartilhando uma impressão minha, pode ser que eu esteja errada. Mas até que faz algum sentido, pois é lógico que estrangeiros oriundos de países como Estados Unidos e Inglaterra, por exemplo – apenas para citar os casos mais clássicos – onde tudo é moderno e avançado, com milhares de facilidades, mais conforto, e tudo o mais, vão ter um pouco mais de dificuldade para se adaptar às coisas daqui que, diga-se de passagem, está mesmo aquém do esperado por eles. Mas ao mesmo tempo, há inúmeros deles que relatam ter escolhido o Brasil justamente por estarem cansados de tudo lindo, tudo perfeito, mas frio, sem o “calor humano”. Basicamente não dá para fazer um traçado muito claro da situação, pois ela é muito diversa.

Só que o problema de hoje é o marido estrangeiro da leitora que só faz reclamar do Brasil, o que acaba gerando muito discussão entre os dois, afinal, quem é que gosta de escutar alguém reclamando dia e noite do lugar em que nascemos e crescemos, lugar esse que guardamos os melhores sentimentos, as melhores lembranças e que nutrimos imenso carinho e, lógico, gostamos também? Não é fácil estar em uma situação dessa. Não podemos esquecer, também, que estrangeiros têm sentimentos, justamente o que eu já comentei mais acima. Eles têm o direito de gostar e desgostar das coisas daqui, reclamar ou não, isso é absolutamente normal. Em meu relacionamento, tivemos a felicidade de gostar e se sentir em casa em ambos os países, seja no país de meu marido, ou aqui, mas nem todos os casais gringo-brasileiros partilham da mesma felicidade. Conheço uma brasileira que detesta o país do parceiro e que não moraria lá de maneira alguma, então para o casal ficar junto, só havia uma solução, morar no Brasil ou em qualquer outro país, menos no país de origem dele. Aparentemente eles conseguiram resolver o impasse e vivem bem aqui.

Acho que a primeira coisa é analisar o porquê de tanta briga. Não gosta do Brasil e só reclama? Ok, até certo ponto é compreensível. Mas se a coisa for realmente demais, a ponto de uma conversa franca, explicando que a pessoa passou dos limites, que está magoando e provocando discórdia, já não estar mais funcionando, bem, aí eu acho que é o momento de começar a pensar no plano B, sem muitas delongas, por que estender uma situação até as últimas consequências? Claro que estou considerando uma situação extrema, em que o tempo passou, a pessoa de fato não se adaptou, em que todas as alternativas foram usadas e ainda assim nada resolveu a situação, isso pode mesmo acontecer. Aí o casal tem que sentar e resolver a situação e não ficar minando o relacionamento aos poucos.

Se o reclamão ou reclamona pode maneirar na encheção de saco e pegar mais leve, que faça a sua parte, brigar em casa por não gostar do Brasil ou de várias coisas no país não vai refrescar em nada, só piora a situação, afinal, é em casa que está a base de tudo. E a vítima do reclamão ou reclamona deve refletir se a reclamação é mesmo genuína ou se está se ofendendo gratuitamente por pouca coisa, o ego pode estar um tantinho inflado também, não é mesmo? Tudo tem dois lados e todos eles devem ser considerados. Se nada resolver, se não houver jeito que ajeite, aí é hora de começar a avaliar outras possibilidades. Aliás, quem se relaciona com estrangeiro tem que ter em mente que considerar outras possibilidades faz parte do jogo, sempre!