Um Francês e Suas Impressões sobre o Brasil

Certa vez, alguém me passou o link de um blog escrito por um francês chamado (O outro) diário do Olivier  e tinha lá um post intitulado “Curiosidades Brasileiras(o único post do blog, por sinal) que me rendeu boas risadas. Achei que valeria a pena compartilhar o texto aqui com vocês, mas é claro que eu quero dar minha opinião em cada uma das observações feitas pelo sujeito.  Quem quiser ler o texto sem meus comentários, é só clicar nos links acima. O que está em negrito foi escrito por ele e eu copiei exatamente como ele escreveu, não corrigi nenhum erro.

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Aqui são umas das minhas observações, as vezes um pouco exageradas, sobre o Brasil. Nada serio.

Aqui no Brasil, tudo se organiza em fila: fila para pagar, fila para pedir, fila para entrar, fila para sair e fila para esperar a próxima fila. E duas pessoas já bastam para constituir uma fila.

Fila é vida, meu caro! Até hoje meu marido fica maravilhado ao ver pessoas respeitando filas, porque lá no país dele, eles nem sabem o que isso significa. Certa vez, eu estava aguardando minha vez para comprar um ingresso em uma fila exclusiva para mulheres, que mais parecida um amontado de mulheres lutando para conseguir chegar ao guichê, e não é que um sujeito, na maior cara de pau, simplesmente se atravessou em minha frente, bem na minha vez, porque a fila dos homens não estava andando? Fiquei louca da vida. Só dá valor a uma fila quem nunca teve ou experimentou uma situação caótica.

Aqui no Brasil, o ano começa “depois do Carnaval”

Mito ou verdade? Pode ser que seja verdade para muita gente, mas definitivamente não para mim, meu ano começa assim que termina meu recesso de fim de ano, ou seja, logo nos primeiros dias de janeiro.

Aqui no Brasil, não se pode tocar a comida com as mãos. No Mc Donalds, hamburguer se come dentro de um guardanapo. Toda mesa de bar, restaurante ou lanchonete tem um distribuidor de guardanapos e de palitos. Mas esses guardanapos são quase de plastico, nada de suave ou agradável. O objetivo não é de limpar suas mãos ou sua boca mas é de pegar a comida com as mãos sem deixar papel nem na comida nem nas mãos.

E frango frito se come como? E a batatinha frita? Achei a observação interessante. Até meu marido, que vem de uma cultura em que comer com a mão é a regra, aqui usa guardanapo fora de casa para quase tudo, inclusive no McDonald’s. Não acho que seja simplesmente uma regra de etiqueta, mas sim para não ficar com as mãos engorduradas, especialmente com frituras. Até que eu não uso tanto guardanapo, em especial se tiver apenas aqueles que não limpam nada, que mais parecem que só engorduram as mãos ainda mais, mas conheço muita gente que não vive sem guardanapo de jeito nenhum. Palito de dente eu acho uó! Devia ser extinto do planeta!

Aqui no Brasil todo é gay (ou ‘viado’). Beber chá: e gay. Pedir um coca zero: é gay. Jogar vólei: é gay. Beber vinho: é gay. Não gostar de futebol: é gay. Ser francês: é gay, ser gaúcho: gay, ser mineiro: gay. Prestar atenção em como se vestir: é gay. Não falar que algo e gay : também é gay.

Moro em uma região em que se fala muito em “coisas de macho”, mas não posso negar que qualquer coisinha pode ser classificada como uma coisa gay. Gaúcho com fama de gay, especialmente se for de Pelotas, é um clássico tupiniquim, mas mineiro é novidade para mim! De qualquer forma, acho mesmo que brasileiro é campeão no quesito tentar se auto-afirmar como um cabra muito macho. O mundo masculino, para eles, é dividido em dois, o mundo dos machos muito machos e o mundo das bibas. Coitado de quem gosta de Coca Zero e chá, tipo meu marido!

Aqui no Brasil, os homens não sabem fazer nada das tarefas do dia a dia: não sabem faxinar, nem usar uma maquina de lavar. Não sabem cozinhar, nem a nível de sobrevivência: fazer arroz ou massa. Não podem consertar um botão de camisa. Também não sabem coisas que estão consideradas fora como extremamente masculinas como trocar uma roda de carro. Fui realmente criado em outro mundo…

É verdade, em geral os homens brasileiros não costumam ajudar nas tarefas domésticas desde pequenos, por incentivo de seus próprios pais. Muitos ainda acompanham esse pensamento ultrapassado de que apenas as mulheres devem realizar as tarefas do lar. Eu mesma cresci em uma família assim. Ainda bem que meu marido é multiuso, sabe cozinhar, lavar louça e roupas (mas é um saco de preguiça). Mas em relação à troca do pneu do carro, não concordo com ele, pois não conheço nenhum homem que não saiba, afinal, carros e afins é “coisa de macho, muito macho”.

Aqui no Brasil, sinais exteriores de riqueza são muito comuns: carros importados, restaurantes caríssimos em bairros chiques, clubes seletivos cujos cotas atingem valores estratosféricas.

Sem dúvida. E mostrar uma riqueza que a pessoa não tem é ainda mais comum. Gente que se afunda em contas, passa necessidade em casa, mora praticamente em um barraco, mas que tem carro do ano e importado é o que mais tem. Aqui no Brasil dizemos que gente assim come ovo e arrota caviar.

Aqui no Brasil, os casais sentam um do lado do outro nos bares e restaurantes como se eles estivessem dentro de um carro.

Óin, adoro sentar do ladinho de meu marido em qualquer lugar

Aqui no Brasil, os homens se vestem mal em geral ou seja não ligam. Sapatos para correr se usam no dia a dia, sair de short, chinelos e camisetas qualquer e comum. Comum também é sair de roupas de esportes mas sem a intenção de praticar esporte. Se vestir bem também é meio gay

Desculpem-me os brasileiros leitores do blog, mas é verdade, de maneira geral o homem brasileiro não é lá muito chegado a vestir-se bem. Eles se vestem feito adolescentes quase em tempo integral: jeans, moletom, tênis, camiseta, bermuda estilo surfista. Meu marido, que sempre usou camisa, aos pouquinhos está aderindo à “modinha”.

Aqui no Brasil, o cliente não pede cerveja pro garção, o garção traz a cerveja de qualquer jeito.

Que exagero! Tudo bem que, dentre as bebidas alcoólicas, a cerveja é uma preferência nacional, mas aí também já é demais! Também pode ser porque cerveja é das bebidas mais baratas se comparada aos destilados da vida. Um copinho de caipirinha custa em torno de 15 reais, e a garrafa de cerveja? Bem mais em conta. Garção é bão!

Aqui no Brasil, todo mundo torce para um time, de perto ou de longe.

Futebol, uma paixão nacional, até mulheres gostam, mas certamente não é uma paixão minha, nem de perto e nem de longe! E meu marido detesta o futebol sul-americano, prefere o europeu. Aliás, futebol não é a praia dele, mas ele decidiu começar a jogar uma vez por semana para mexer o corpinho e conhecer pessoas. Era um perna de pau no início, mas agora até já faz gols (no momento nem joga mais).

Aqui no Brasil, sempre tem um padre falando na televisão ou na radio.

Ah, sim, certamente. Em torno de 87% da população é cristã, mas eu vejo mais pastor na TV do que qualquer outra coisa. Na verdade, há anos que não assisto tv.

Aqui no Brasil, a vida vai devagar. E normal estar preso no transito o dia todo. Mas não durma no semáforo não. Ai tem que ser rápido e sair ate antes do semáforo passar no verde. Não depende se tiver muitas pessoas atrás, nem se estiverem atrasados. Também é normal ficar 10 minutos na fila do supermercado embora que tenha só uma pessoa na sua frente. Ai demora para passar os artigos, e muitas vezes a pessoa da caixa tem que digitar os códigos de barra na mão ou pedir ajuda para outro funcionário para achar o preço de um artigo. Mas, na hora de retirar o cartão de credito, ai tem que ser rápido. Não é brincadeira, se não retirar o cartão na hora, a mesma moça da caixa que tomou 10 minutos para 10 artigos vai falar agressivamente para você agilizar: “pode retirar o cartão!”

Realmente, o trânsito está cada vez pior e o povo cada vez mais enlouquecido para comprar carro. Na primeira oportunidade, já se afundam em financiamento para comprar um carrinho popular, ou seja, a tendência é piorar ainda mais. Enquanto isso, nos países desenvolvidos, o povo está aderindo cada vez mais aos transportes públicos. Esse é o nosso Brasil, sempre na contramão!

Aqui no Brasil, os chineses são japoneses.

Ou os japoneses são chineses? E os coreanos? Ninguém sabe quem é quem, é difícil identificar.

Aqui no Brasil, a política não funciona só na dimensão esquerda – direita. Brasil é um pais de esquerda em vários aspectos e de direita em outros. Por exemplo, se pode perder seu emprego de um dia pra outro quase sem aviso. Tem uma diferencia enorme entre os pobres e os ricos. Ganhar vinte vezes o salario minimo é bastante comum, e ganhar o salario minimo ainda mais. As crianças de classe media ou alta estudam quase todos em escolas particulares, as igrejas tem um impacto muito importante sobre decisões politicas. E de outro lado, existe um sistema de saúde publico, o estado tem muitas empresas, tem muitos funcionários públicos, tem bastante ajuda para erradicar a pobreza em regiões menos desenvolvidas do país. O mesmo governo é uma mistura de política conservadora, liberal e socialista.

Ele está por fora, agora tudo se resume a esquerda mortadela e direta coxinha.

Aqui no Brasil, e comum de conhecer alguem, bater um papo, falar “a gente se vê, vamos combinar, ta?”, e nem trocar telefone.

É o clássico “Vamos combinar? Vamos” e fica tudo por isso mesmo! Quando alguém fala para meu marido “vamos combinar?”, ele logo responde “quando? amanhã?” e deixa a pessoa que perguntou com cara de bunda.

Aqui no Brasil, a palavra “aparecer” em geral significa, “não aparecer”. Exemplo: “Vou aparecer mais tarde” significa na pratica “não vou não”.

Eu discordo, significa que um dia vai aparecer, sim, não necessariamente amanhã ou depois! Um ano, quem sabe?

Aqui no Brasil, não falta espaço. Falam que o pais tem dimensões continentais. E é verdade, daria para caber a humanidade inteira no Brasil. Mas então se tiver tanto espaço, por que é que as garagens dos prédios são tão estreitos? Porque existe até o conceito de vaga presa?

Rapaz, garagem aqui é sinônimo de lucro, tem até gente que aluga e vende a dita! Tem gente que se estapeia por causa delas. Estacione seu carro por um minuto em uma vaga de garagem que não é sua para você ver o que acontece, corre-se um sério perigo.

Aqui no Brasil, comida salgada é muito salgada e comida dolce é muito doce. Ate comida é muita comida.

Será? Meu marido vive reclamando que falta sal nas comidas daqui! E os doces ele adora, quanto mais doce melhor! O negócio aqui é fartura mesmo e sempre achamos que franceses passam fome comendo aquele miserê de comida, é muito espetáculo para pouca comida.

Aqui no Brasil, se produz o melhor café do mundo e em grandes quantidades. Uma pena que em geral se prepare muito mal e cheio de açúcar.

Café cheio de açúcar é muito amor! Se for com leite, então, é uma explosão de amor! Originalmente, meu marido é fã de chá, mas aprendeu a tomar café preto puro.

Aqui no Brasil, praias bonitas não faltam. Porem, a maioria dos brasileiros viajam todos para as mesmas praias, Búzios, Porto de Galinhas, Jericoacoara, etc.

Há os destinos mais famosos, que por sua vez têm mais infra-estrutura para receber os turistas justamente por serem mais famosos e frequentados, mas nada a ver falar que viajamos todos para as mesmas praias, portanto, discordo dele. Aqui quem manda é o dinheiro, viaja-se até onde seu dinheiro possa te levar.

Aqui no Brasil, futebol é quase religião e cada time uma capela.

Nesse quesito sou ateia.

Aqui no Brasil, as pessoas acham que dirigir mal, ter transito, obras com atraso, corrupção, burocracia, falta de educação, são conceitos especificamente brasileiros. Mas nunca fui num pais onde as pessoas dirigem bem, onde nunca tem transito, onde as obras terminam na data prevista, onde corrupção é só uma teoria, onde não tem papelada para tudo e onde tudo mundo é bem educado!

Não adianta disfarçar, o Brasil é, sim, um país bastante atrasado e subdesenvolvido nesses aspectos.

Aqui no Brasil, esporte é ou academia ou futebol. Uma pena que só o futebol seja olímpico.

Nada a ver. Claro que há muitos esportes que não são nada populares no país, mas dizer que tudo se resume a academia e futebol é generalizar demais. Tudo bem que, em termos olímpicos, o Brasil quase sempre é uma decepção, mas há uma infinidade de esportes praticados por aqui que não somente academia e futebol. O povo adora corrida de rua, caminhada, passeio ciclístico, surf, entre muitos outros.

Aqui no Brasil, existe três padrões de tomadas. Vai entender porque…

Pois é, ele deve estar se referindo às tomadas antigas, aquelas que davam curto e pegavam fogo fácil, fácil. Muitas vezes, ao secar meu cabelo com um secador mais potente, vi a tomada derretendo ou saindo faísca, um perigo! Por isso eles acabaram mudando o padrão das tomadas. Mas isso não significa que todas elas foram trocadas em todos os lugares, e por isso ainda há as do padrão antigo convivendo harmoniosamente com as atuais. Em minha casa tem de tudo.

Aqui no Brasil, não se assuste se estiver convidado para uma festa de aniversário de dois anos de uma criança. Vai ter mais adultos do que crianças, e mais cerveja do que suco de laranja. Também não se assuste se parece mais com a coroação de um imperador romano do que como o aniversário de dois anos. E ‘normal’.

Sim, é normal ter muitos adultos, alguém tem que cuidar da fedelhama para não aprontarem demais e deixar a mãe do aniversariante louca. Ele esqueceu de mencionar que os aniversário infantis são super produções em que se gasta barris de dinheiro em uma festa que dura pouco mais de 5 horas. E raramente se vê suco de laranja, é Fanta, Coca e Guaraná mesmo que servem.

Aqui no Brasil, nõ tem o conceito de refeição com entrada, prato principal, queijo, e sobremesa separados. Em geral se faz um prato com tudo: verdura, carne, queijo, arroz e feijão. Dai sempre acaba comer uma mistura de todo.

Sim, neste quesito não somos muito refinados. Brasileiro gosta mesmo é de rodízio, buffet livre, comilança e orgia gastronômica.

Aqui no Brasil, se acha tudo tipo de nomes, e muitos nomes americanos abrasileirados: Gilson, Rickson, Denilson, Maicon, etc.

Além destas preciosidades americanizadas, brasileiro adora nomes bíblicos, nomes compostos e muito y.

Aqui no Brasil, quando comprar tem que negociar.

Depende do que se está comprando, as compras do dia a dia praticamente não permitem pechincha, tem lá seu descontinho mixuruco, mas isso é tudo. Talvez ele estivesse se referindo a compra de imóveis ou bens de maior valor.

Aqui no Brasil, os homens se abraçam muito. Mas não é só um abraço: se abraça, se toca os ombros, a barriga ou as costas. Mas nunca se beija. Isso também é gay.

Beija, sim, como não? Quando são bastante amigos ou parceiros, rola beijo, sim, mas bem menos meloso que o usual adotado por mulheres, porque afinal, muito grude não é “coisa de macho”.

Aqui no Brasil, o polegar erguido é sinal pra tudo : “Ta bom?”, “obrigado”, “desculpa”.

Sim, é bem isso mesmo! E são os homens que gostam mais de gastar seus polegares fazendo esses sinais do que as mulheres.

Aqui no Brasil, quando um filme passa na televisão, não passa uma vez só. Se perder pode ficar tranquilo que vai passar mais umas dez outras vezes nos próximos dias. Assim já vi “Hitch” umas quatro vezes sem querer assistir nenhuma.

Quando eles anunciam um filme inédito na televisão brasileira aberta, isso já é algo inédito por si só. E ele fala de Hitch porque nunca assistiu “A Lagoa Azul” na sessão da tarde, um clássico da televisão brasileira.

Aqui no Brasil, todo mundo gosta de pipoca e de cachorro quente. Não entendo.

Pipoca, cachorro quente, espetinho de gato, coxinha, churros, sonho, pamonha, tudo quentinho e na porta de sua casa.

Aqui no Brasil, as lojas, o negócios e os lugares sempre acham um jeito de se vender como o melhor. Já comi em em vários ‘melhor bufe da cidade’ na mesma cidade. Outro superativo de cara de pau é ‘o maior da América latina’. Não costa nada e ninguém vai ir conferir.

Parece-me que ele não entende nada de marketing barato.

Aqui no Brasil, tem uma relação ambígua e assimétrica com a América latina. A cultura do resto da América latina não entra no Brasil, mas a cultura brasileira se exporta la. Poucos são os brasileiros que conhecem artistas argentinos ou colombianos, poucos são os brasileiros que vão de ferias na América latina (a não ser Buenos Aires ou o Machu Pichu), mas eles em geral visitaram mais países europeus do que eu. O Brasil as vezes parece uma ilha gigante na América latina, embora que tenha uma fronteira com quase todos os outros países do continente.

Como é que a cultura da América Latina não entra aqui? Entra muito. O conceito de churrasco vem dos pampas (brasileiro, uruguaio e argentino), tem o fenômeno do portunhol, os imigrantes tocando aquelas flautinhas enlouquecidamente nas praças nos centros das grandes cidades, vendendo seus CDs, empanadas chilenas, argentinas, os montes de vinhos nos supermercados, o alfajor, aquelas toucas e casados de inverno cheio de desenhos característicos dos povos andinos, isso sem falar que se encontra brasileiro aos montes fazendo turismo em todos os países vizinhos, inclusive no Paraguay. Eu poderia ficar um bom tempo apenas falando sobre tudo aquilo que entra aqui.

Aqui no Brasil, relacionamentos são codificados e cada etapa tem um rótulo: peguete, ficante, namorada, noiva, esposa, (ex-mulher…). Amor com rótulos.

A sociedade gosta, a sociedade quer.

Aqui no Brasil, a comida é: arroz, feijão e mais alguma coisa.

Meu marido diz a mesma coisa. Ele está de saco cheio de arroz e feijão desde o primeiro mês no Brasil. Certa vez, encontrei uma francesa na Polícia Federal, e lá estava ela reclamando do nosso arroz com feijão. Não que eu seja fã da combinação, mas perguntei a ela o que os franceses comiam em seu dia a dia no final das contas. Ela disse que comem purê de batata e mais alguma coisa. Achei estranho, aliás, ela não falou coisa com coisa, mas fez questão de acabar com a raça do arroz com feijão.

Aqui no Brasil, o brasileiros acreditam pouco no Brasil. As coisas não podem funcionar totalmente ou dar certo, porque aqui, é assim, é Brasil. Tem um sentimento geral de inferioridade que é gritante. Principalmente a respeito dos Estados Unidos. To esperando o dia quando o Brasil vai abrir seus olhos.

É, brasileiro é, em sua maioria, paga pau dos Estados Unidos. Alguns até disfarçam e também há aqueles que adoram fazer discurso anticapitalista, leia-se aqui anti-americanismo. Aposto que comem no McDonald’s, têm carrinho da Ford e um celular da Apple.

Aqui no Brasil, de vez em quando no vocabulário aparece uma palavra francesa. Por exemplo ‘petit gâteau’. Mas para ser entendido, tem que falar essas palavras com o sotaque local. Faz sentido mas não deixa de ser esquisito.

Não só petit gâteau, mas também abajur, ballet, boutique, buffet, boite, champagne, chic, croissant, garçom, glacé, rouge… Isso se chama galicismo. Do mesmo modo que também adotamos mais trocentas palavras inglesas.

Aqui no Brasil, dentro dos carros, sempre tem uma sacola de tecido no alavanca de mudança pra colocar o lixo.

Claro, ninguém vai jogar o lixo pela janela, nem emporcalhar o chão do carro. Não é algo óbvio ter um lixinho exatamente ali?

Aqui no Brasil, os brasileiros se escovam os dentes no escritório depois do almoço.

Diz a lenda que é bom escovar os dentes sempre após as refeições, acho que ele nunca deve ter escutado.

Aqui no Brasil, se limpa o chão com esse tipo de álcool que parece uma geleia.

Aqui se limpa o chão não só com álcool, mas também querosene, para espantar insetos e mais trocentos produtos de limpeza com cheirinho de laranja, limão, flores do campo e eucalipto. Eu amo o de cheirinho de laranja.

Aqui no Brasil, a versão digital de ‘fazer fila’ e ‘digitar codigos’. No banco, pra tirar dinheiro tem dois códigos. No supermercado, o leitor de código de barra estando funcionando mal tem que digitar os códigos dos produtos. Mas os melhores são os boletos pra pagar na internet: uns 50 dígitos. Sempre tem que errar um pelo menos. Demora.

Antigamente nem isso tinha, o caixa tinha que digitar os preços dos produtos um a um, aliás, até hoje há mercadinhos, armazéns e afins trabalhando dessa maneira.

Aqui no Brasil, tem um lugar chamado cartório. Grande invenção para ser roubado direito e perder seu tempo durante horas para tarefas como certificar uma copia (que o funcionário nem vai olhar), o conferir que sua firma é sua firma.

Sim, cartório caça níquel mesmo, uma máfia. Meu sonho dourado é ser dona de cartório e motel também, dão muito dinheiro.

Aqui no Brasil, pode pedir a metade da pizza de um sabor e a metade de outro. Ideia simples e genial.

Pena que eles também não façam isso nas pizzas brotinho.

Aqui no Brasil, no tem agua quente nas casas. Dai tem aquele sistema muito esperto que é o chuveiro que aquece a agua. Só tem um porem. Ou tem agua quente ou tem um vazão bom. Tem que escolher porque não da para ter os dois.

Ah, o chuveiro elétrico! De-tes-to! Mas há muito tempo que esses chuveiros estão dando lugar mais e mais a aquecimento a gás.

Aqui no Brasil, as pessoas saem da casa dos pais quando casam. Assim tem bastante pessoas de 30 anos ou mais morando com os pais.

Sim, e às vezes casam e continuam morando na casa dos pais por motivos diversos, ou se tornam vizinhos. Eu não gostaria de ser americana, por exemplo, que quando vai para a faculdade já tem que começar a se coçar para morar sozinho. Depois de se conquistar a total independência financeira, não vejo problema nenhum a pessoa sair de casa, nada mais natural, mas também não penso que deva ser compulsório, se a pessoa gosta de morar com os pais, que mal tem?

Aqui no Brasil, tem três palavras para mandioca: mandioca, aipim e macaxeira. La na franca nem existe mandioca.

Aqui em casa comemos mandioca sempre, aipim de vez em quando e macaxeira nunca!

Aqui no Brasil, tem o numero de telefone tem um DDD e também um numero de operadora. Uma complicação a mais que pode virar a maior confusão.

Certa vez, eu e meu marido sentamos bonito, a operadora que costumamos usar para fazer ligação internacional estava com problemas naquele dia e resolvemos tentar outra. Quase caímos para trás quando a conta chegou, eles cobraram dez reais um minuto. Merda de telefonia brasileira.

Aqui no Brasil, no taxi, nunca se paga o que esta escrito. Ou se aproxima pra cima ou pra baixo.

A aproximação leva em conta uma regra de arredondamento matemático universal, não é isso?

Aqui no Brasil, marcar um encontro as 20:00 significa as 21:00 ou depois. Principalmente se tiver muitas pessoas envolvidas.

Pontualidade britânica e chá das cinco só mesmo na Inglaterra.

Aqui em Belo Horizonte, e a menor cidade grande do mundo. 5 milhões de habitantes, mas todo mundo conhece todo mundo. Por isso que se fala que BH é um ovo. Eu diria que é um ovo frito. Assim fica mais mineiro.

Ah, mal sabe ele que o próprio mundo é um ovo.

Autor: manualquasepratico

Brasileira, casada com um estrangeiro, atualmente vivendo e blogando no Brasil.

8 comentários em “Um Francês e Suas Impressões sobre o Brasil”

  1. Aqui em casa foi se formando uma rodinha em volta do computador depois que comecei a ler. É interessante observar a visão de alguém de fora. Tuas observações ficaram ótimas. E não vou elogiar mais porque todo mundo sabe. Elogiar é coisa de gay.

  2. Kakakakakakakaka não consigo parar de rir. Mas concordo com várias coisas, tipo o machismo brasileiro (tudo é visto como gay, falta de atividades domésticas pra muitos homens,etc) e o fato de as pessoas se importarem só com status (carro importado, tv enorme, etc)…

    Ah, sou artista mas pra mim não tem isso de ano começar depois do carnaval. Pra mim não tem feriado e fim de semana. quem me dera rsrs 😀

    1. Oi Vanessa, tudo bem?

      Bem, acabei generalizando o termo “artista” e todo mundo acabou no mesmo saco, mas eu me referia mesmo àqueles artistas muito ricos, tipo estrelas globais, que entram em férias em dezembro e só retornam à atividade em fevereiro, depois do carnaval rs… Se este for o seu caso, sorte a sua =D

      Beijos!

  3. Amei suas justificativas!! Eu também adoro sentar do ladinho do meu amor! Adoro colocar a comida tudo junto no mesmo prato!! Sem essa de comer saladinha primeiro, entradas, etc porque até lá a fome já passou. Por isso pratos principais franceses vem praticamente vazios com um fio de manteiga e uma folhinha verde de salsa por que depois de tantas entradas nem fome a pessoa tem mais. rs Sobre roupas esportes é verdade, quando meu marido chegou só usava camisa e hoje só usa camiseta. Apenas pra sair comigo ele usa camisa.
    O que faltou muito nesse frances foi senso de humor. É incrível mas ele não entendeu nada das expressões brasileiras! E pelo amor de Deus achar estranho um saquinho para colocar lixo dentro do carro e escovar os dentes depois do almoço no escritório já é demais né! Fico aqui imaginando ele todo chique com sotaque francês dando entrevista com um alface enfiado no dente.

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