Palpites Furados que as Pessoas Dão para Estrangeiros no Brasil

Se houve uma coisa que escutei muito antes e depois da vinda de meu marido ao Brasil foi palpite furado sobre o que deveríamos fazer ou não. E ora, vejam só, que coincidência, todos os palpites foram negativos, que coisa, não? Meu conselho é, nunca deixe ninguém dar palpite furado, te pôr para baixo ou tirar suas esperanças do que quer que seja, pois se vocês se esforçarem, vai dar tudo certo, sim, não tem porque dar errado. Pode até demorar um pouco, mas que dá certo, é claro que dá.

Infelizmente, algumas pessoas bem que tentaram me envenenar com seu pessimismo. Não me deixei abater, mas também sou daquelas que não esquece nomes jamais. Uma amiga minha, que eu considerava bastante, disse, antes mesmo de meu marido se mudar para o Brasil, que ela tinha peninha de mim, porque ele dificilmente conseguiria emprego. Que legal, né? Outra pessoa, uma prima mais distante, também soltou uma pérola quando eu comentei com ela que meu marido havia recebido uma proposta de trabalho através de um contato. A oferta era para trabalhar como operador de produção, mas que ele havia recusado, já que ele era engenheiro, tinha qualificação e experiência suficientes e também porque seu perfil estava despertando interesse no mercado de trabalho. Pois não é que a prima deu uma risada diabólica e disse que era pouco provável que ele começasse tão bem, trabalhando como engenheiro, e que ele tinha que começar por baixo? Ah tá, entendi.

Não satisfeita, ela disse que ele só conseguiria emprego se tivesse um contato para arranjar para ele, que ela mesma já tinha procurado muito emprego na vida e que a coisa só funciona mesmo na base do contato. Será esse o motivo pelo qual ela ainda não engrenou em sua própria carreira, mesmo sendo graduada em uma área cheia de oportunidades? O que será que ela fez, ou deixou de fazer, que não conseguiu emprego bom por méritos próprios? Será que ela acha que conseguir emprego por contato é um atalho que facilita muito a vida? O engraçado é que ela não foi a única a falar uma coisa dessa, tá cheio de gente por aí que acredita piamente nisso.

Se tem uma coisa que eu simplesmente não aguento é esse tipo de papo. Quando se fala em procurar emprego, a primeira coisa que falam é sobre contato. Isso cansa a minha beleza, sério mesmo. Se há um contato realmente bom, disposto a fazer alguma coisa por você, ótimo! Mas isso não significa que você deva pregar a sua bunda no sofá e esperar a boa vontade do contato, mexa-se enquanto isso se você acha mesmo que esse lance de contato é o que realmente funciona. Talvez seja pessimismo meu, mas eu não acho que muita gente esteja assim tão disposta a ajudar e te ver bem sucedido e encaminhado. Familiares, amigos próximos e um ou outro conhecido podem até torcer por você e estar mesmo interessado em te ajudar, mas quanto ao restante, com raríssimas exceções, não estarão nada preocupados.

Não sou besta de dizer que contatos não existem, eu até conheço algumas poucas pessoas que foram contratadas dessa maneira, mas eu acredito muito mais na capacidade das pessoas, acima de qualquer indicação ou contato. Claro que quando se fala em contatos, há muitos tipos a se levar em consideração e não somente aquele conhecido que conhece alguém que pode ajudar. Há indicação por capacidade, mas também por amizade e simpatia, e não necessariamente por qualificação. Também tem o “jeitinho” brasileiro e assim por diante. Mas não importa, eu ainda acho que qualificação fala muito mais alto e que uma pessoa preparada não deve temer procurar emprego pelos modos tradicionais, sem atalhos. Vai conseguir.

É óbvio que é muito cômodo defender que as coisas aqui no Brasil só funcionam na base do quem indica, mas eu não acho que isso seja verdade. A real é que a maioria dos empregos é conquistada na raça mesmo, só leva quem for o melhor. Não à toa que hoje em dia há processos seletivos longuíssimos, caros, divididos em várias etapas e conduzidos por profissionais especializados. É idiota pensar que uma empresa vai gastar tempo e dinheiro fazendo seleção de pessoal se no fim das contas vão contratar um sujeito que foi indicado por alguém de dentro da empresa. Isso pode até acontecer, mas não é a regra.

O pior é que até mesmo entre os próprios estrangeiros vivendo no Brasil há esse consenso de que a maioria só consegue emprego por indicação, cheguei até ler alguns artigos sobre isso em inglês! Pois olhe, eu, em minha insignificância, desafiaria qualquer um, seja brasileiro ou estrangeiro, a enfiar a cara e procurar emprego de verdade, com vontade, para ver se conseguiria ou não. Eu mesma fiz isso, mesmo escutando zilhões de vezes que era quase impossível, e deu certo todas as vezes.

Talvez eu esteja errada, mas o que eu acho que acontece muito é o sujeito ter uma preguiça profunda no corpo, porque eu estaria mentindo se dissesse que é fácil e agradável procurar emprego pelo modo tradicional. É claro que não, e é claro que dá preguiça, e é por isso que as pessoas se fiam muito nessa história de contato. Outra desculpa muito comum entre estrangeiros é culpar sua condição de estrangeiro no Brasil, dizendo que não entende nada do sistema daqui e que brasileiro é protecionista. Desapegue, isso não é verdade. Uma vez que se está morando aqui, é melhor começar a aprender a se comportar como um daqui no mercado de trabalho, pois na prática você será tratado como outro brasileiro qualquer, não há processos especiais, é tudo igual. E as empresas não descartam um estrangeiro por ser estrangeiro, eles descartam aqueles profissionais que não possuem as competências e habilidades necessárias para a posição, seja brasileiro ou estrangeiro, simples assim.

Então, por mais que eu tenha escutado milhares de vezes que só conseguiríamos por indicação, eu liguei o aviso luminoso de “dane-se” (para não dizer outra coisa) para essas pessoas e fui correr atrás, porque para dar palpite furado o povo é muito bom, indicar ou ajudar que é bom. ninguém quer. Se eu não tivesse arregaçado as mangas e estivesse esperando por uma intervenção divina, ou uma ajuda amiga ou de quem quer que fosse, sabe lá o que seria de nós. Na verdade eu sei, sim, meu marido estaria desempregado até hoje.

Acho que quase ninguém acreditava que fôssemos conseguir, mas quando viram que nosso esforço procurando emprego estava dando resultado, as pessoas começaram a pedir dicas para nós, até mesmo ajuda! Gente que eu sei que nunca procurou um mísero emprego na vida, que todos os empregos que teve foram na base da ajuda de amigos e familiares, mas quando viu que a coisa funciona mesmo, se animou para fazer igual. Uma dessas pessoas queria até que eu fizesse para ela a mesmíssima coisa que fiz para o marido, em troca ela me daria 3% de seus três primeiros salários. Esses 3% eu não sei de onde foram tirados, mas abafa o caso, eu desconversei o assunto, porque eu jamais faria para ninguém do mesmo jeito que fiz para o marido. Talvez só fizesse igual se fosse muito bem remunerada para isso.

A “amiga” que disse que tinha peninha de mim também soltou mais uma pérola certa vez quando soube que tínhamos conseguido, ela disse que a notícia era ótima, mas que agora teríamos que rezar para ele permanecer empregado. Outro sujeito disse que sem revalidar diploma e sem registro no conselho de classe, meu marido só poderia trabalhar como operador de produção. Detalhe que esse sujeito tem a mesma formação de meu marido e disse isso na cara dele, sem dó nem piedade. O pior de tudo é que meu marido acreditou, pois foram palavras que saíram da boca de um colega de profissão. Nós acabamos brigando por causa disso, tudo por causa de um sujeito ignorante que nem sabe de nada sobre a situação do estrangeiro no Brasil e fica falando um monte de merda que julga ser verdade. Queria que ele explicasse o fato de meu marido ter conseguido um emprego bom, com um cargo que em nada tem a ver com operador de produção. Eu fiquei morta de ódio. Só para esclarecer, já falei sobre isso antes, não temos nada contra operadores de produção, é uma profissão digna e fundamental à indústria, mas quem trabalha como operador o faz por falta de maiores opções, porque falta muitas coisas, como qualificação, estudos, mais oportunidades, etc. Quase ninguém escolhe ser operador quando crescer, é a ocasião que faz a situação, ou seja, a falta de maiores opções. Meu marido tinha opções, estudo, oportunidade, demorou um bocado, mas deu certo.

A grande questão em relação aos palpites furados que as pessoas dão é, eu sei muito bem o que meu marido, na condição de estrangeiro, pode ou não pode fazer, quais são seus direitos, quais são suas limitações, eu me informei sobre tudo de mais importante que precisávamos saber. Não será um completo idiota e ignorante, que não sabe de nada disso, que vai me “instruir” sobre o assunto. Por isso tudo é que nunca pedi opinião nem orientação a ninguém, sempre fui auto-suficiente, pesquisei tudo nas leis, nos sites dos ministérios e em várias outras fontes, pois conhecimento e informação são nossos melhores companheiros nesta jornada. Dessa maneira, ninguém conseguirá nos fazer de idiota ou nos enganar, sabemos de nossos direitos. O achismo das pessoas não tem cabimento nenhum em momento algum. E se for para desabafar com alguém, seja muito criterioso na hora de escolher, um único desabafo com a pessoa errada, na hora errada, pode colocar muita coisa a perder.

Se este post foi útil e esclarecedor, deixe seu comentário, curta e compartilhe! Obrigada! 

Autor: manualquasepratico

Brasileira, casada com um estrangeiro, atualmente vivendo e blogando no Brasil.

8 comentários em “Palpites Furados que as Pessoas Dão para Estrangeiros no Brasil”

  1. Gente, esse é o melhor post de todo o blog!!! Também estou cansada de ouvir palpites e sugestões de gente que não sabe nada do assunto, principalmente daqueles desesperados que ficam mandando ir logo me mudar pro país dele pq é muito melhor que o Brasil. Fiquei admirada com sua garra e força de vontade, parabéns :DD

    1. hahaha… pois olha, até fui ler novamente o post para ver se é mesmo o melhor de todo o blog rs… Hoje eu já adicionaria mais algumas coisas em relação aos papos furados, especialmente aqueles que saem da boca dos próprios estrangeiros, acho até que merece um post continuação rs…

  2. Oi, manual! Queria saber como foi a reação da sua família quando souberam que vc ia viajar para encontrar seu marido e se casar com ele no exterior. Você sempre teve apoio dos seus pais ou foi uma tempestade em copo d’água? Conta sua experiência? Meus pais não gostam nada da ideia de eu ir encontrá-lo, e a minha ida é bem mais fácil que a vinda dele (o único ”impecilho” que me faz dar dois passos para trás são meus pais). Mas o dia de ter uma conversa definitiva e esclarecedora vai chegar e tenho ‘medo’ dos dramas ou ameaças por parte deles…. Dicas?

    Obrigada.

    1. Olá Solange, tudo bem?

      Minha família acompanhou meu relacionamento desde o início, nunca escondi nada deles, e na medida do possível eles também tinham contato com meu marido.

      Minha viagem estava agendada muito antes de conhecer meu marido, pois eu queria fazer turismo lá. Depois que o conheci, uni o propósito turístico ao amoroso. Minha família ficou apreensiva, é claro, não respiraram aliviados até que tudo ficasse bem, mas felizmente fui apoiada em minha decisão na maior parte do tempo.

      Pais não costumam gostar muito de aventuras, especialmente em se tratando de aventuras amorosas “exóticas”, mas seu senso de responsabilidade, seriedade e maturidade ao encarar as situações é que vão deixá-los um pouquinho mais tranquilos. Procure partilhar seus planos de viagem, trace um plano B em conjunto com eles, sempre os deixe a par de tudo, pois isso gera confiança. São as dicas que eu tenho para dar.

      Um abraço.

  3. acreditar em mim mesma é tudo que tenho. E ver outros relacionamentos dando certo, só me dá mais força! Vou ficar esperando o post. 😉

  4. Olá, eu sempre estou aqui lendo o teu blog, li todos os posts. Acho que só comentei uma vez, apesar disso sou muito presente aqui. Esse blog é uma inspiração para mim, e será de grande ajuda no futuro, porque pretendo casar com meu namorado gringo. Enfim, quero te dar parabens e dizer que você é uma inspiração. Um exemplo de força. Tenha sempre orgulho de si, e saiba que todas as informações que vc compartilha são muito importantes. Quanto a palpites negativos, eu entendo bem. Minha própria mãe fala que meu relacionamento nunca dará certo, bla bla bla… Isso me machuca muito, principalmente por ser minha própria mãe. Acho o apoio da familia muito importante, mas é um apoio que eu não tenho, e me deixa triste.

    1. Oi Vanessa, que bom que você está sempre por aqui! E muito obrigada pelos elogios, com certeza essa é a minha inspiração para continuar escrevendo!

      O apoio da família é muito importante, mas mais importante do que isso é acreditar em si e em seu relacionamento. Tenho essa ideia de tópico para post anotada em meu caderninho de anotações, futuramente falarei sobre isso.

      Um beijo e bom final de semana!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s