Primeiras Ligações para Entrevistas de Estrangeiros no Brasil

Mais ou menos um mês depois de começar a cadastrar o currículo de meu marido em sites de recursos humanos e candidatá-lo às vagas que tínhamos interesse, ele recebeu as primeiras ligações. Sim, no plural mesmo, pois foram três ligações em pouco mais de um mês (o que significa que o currículo que elaboramos estava cumprindo sua função).

O procedimento para receber tais ligações foi muito simples e sem custo algum (não esqueçam que boas empresas de recursos humanos não cobram nada do candidato). Apenas recapitulando, simplesmente cadastrei o currículo do meu marido em diversos sites de recursos humanos e no máximo de sites possíveis. Depois o candidatei às vagas em que ele atendia aos requisitos, pelo menos grande parte deles, porque mandar o currículo por mandar para qualquer vaga não adianta, os recrutadores simplesmente descartam. O recrutador analisa tudo isso, avalia seu perfil e se o selecionar para entrevista, significa que o candidato atende a grande parte dos requisitos da vaga e eles têm grande interesse em conhecê-lo pessoalmente.

O grande problema nas primeiras três ligações, em nosso caso, foi o “maravilhoso” português de meu marido à época. Quando ligaram pela primeira vez – apesar de eu ter ficado super feliz pelo fato de o currículo de meu marido ter despertado interesse e ter começado a apresentar resultado, eu é que tive que atender a ligação e conversar com a recrutadora, pois meu marido sequer tinha condição de falar português pessoalmente, imagine ao telefone. Quem ligou foi a estagiária de RH, que foi muito simpática, diga-se de passagem. Expliquei a situação a ela e disse que ele não poderia falar ao telefone por ter um pouco de dificuldade de compreensão durante a ligação. Imagine só, “um pouco de dificuldade”, que piada, né? Sim, eu menti. Não me sentia confortável fazendo isso, mas era a única alternativa. Com o tempo, se você passar por essa situação, vai acabar aprendendo a improvisar para conseguir uma entrevista e foi pensando exatamente assim que acabei falando aquilo para a estagiária. Nada foi premeditado, simplesmente aconteceu, pois o que eu queria mesmo era a dita da entrevista pessoalmente na esperança de que alguém falasse inglês na agência.

A mocinha falou um pouco sobre a vaga, perguntou se meu marido tinha interesse e me informou que ela teria que conversar com a supervisora. Mais tarde, a supervisora retornou a ligação perguntando qual era o nível de português dele. Acho que eu respondi que era de básico a intermediário. Menti de novo.

Apesar de a vaga indicar inglês fluente como requisito, a supervisora disse que teria de conversar com a empresa contratante primeiro para ver se eles teriam interesse. Caso tivessem, ela ligaria novamente. É óbvio que nunca recebemos ligação alguma, mas tudo bem, encarei como um teste prático mais para analisar como os recrutadores se comportam ao telefone, o que costumam perguntar, etc. Há um padrão bem fácil de assimilar.

Algumas semanas depois, acho que, no máximo, um mês, recebemos outra ligação. Novamente tive de falar com a recrutadora e explicar a situação. Mas dessa vez não deu certo, ela logo nos descartou, porque, para a posição, falar português era mandatório. Fiquei feliz e triste ao mesmo tempo. Para meu marido foi bom, pois ele começou a tomar consciência de sua situação em relação ao idioma. Já falei anteriormente sobre o corpo mole que ele estava fazendo para aprender português nos seis primeiros meses no país. Essa ligação fez com que ele ficasse um pouco preocupado, em especial porque viu que o currículo que elaborei estava atingindo seu propósito, mas o seu desempenho durante as ligações não.

Poucas semanas se passaram até que ele conseguiu, finalmente, agendar a primeira entrevista. Era a terceira ligação que ele estava recebendo e, felizmente, o recrutador falava inglês também. Ele pôde, enfim, falar pela primeira vez ao telefone para marcar a entrevista. Ele até que se esforçou, tentando fazer uma mistura de inglês com português, mas muito mais inglês, é óbvio. Na hora de anotar o endereço, eu tive que falar com o recrutador.

A entrevista foi agendada para o mesmo dia. Aliás, foi a única oportunidade que isso aconteceu, pois, em geral, eles ligam hoje agendando para amanhã. Meu marido foi correndo fazer a barba, mas como não estávamos esperando ligações para entrevistas em tão pouco tempo, não tínhamos a roupa adequada para a situação. Então, ele vestiu jeans, sapatênis preto e uma camisa branca de manga curta. Eu disse a ele que a camisa de manga curta não estava ornando muito, mas ele deu de ombros e foi daquele jeito mesmo.

A entrevista foi em uma consultoria de alto padrão chamada Hays. Há vários escritórios espalhados pelo país e as vagas não são operacionais, a maioria é vaga técnica e executiva, uma coisa bem diferenciada mesmo. Foi o escritório de RH mais luxuoso em que estive, e definitivamente o traje de meu marido não foi o mais adequado. O recrutador, inclusive, estava trajando terno.

Apesar disso, ele e o recrutador conversaram por mais de uma hora (detalhe que, segundo meu marido, o recrutador estava mais interessado em matar a curiosidade fazendo perguntas sobre o país e a cultura dele do que qualquer outra coisa). Ao fim, ele disse que meu marido era um forte candidato e que ele faria um lobby com a empresa contratante. Infelizmente, não deu em nada, nem para a segunda entrevista com a empresa ele foi chamado. Eu fiquei com a impressão de que o sujeito só chamou meu marido lá só por curiosidade mesmo, para entrevistar um gringo de origem “exótica” e ver como é que é.

Uma coisa que aprendi, depois de muito tempo, foi não acreditar nas historinhas do pessoal de recursos humanos e nem esperar pela devolutiva do processo seletivo. Simples assim. Se depois de um tempo ninguém te procurou, fica muito claro que você não foi o escolhido, porque ninguém esquece de ligar para o candidato aprovado.

Em suma, não dá para esperar muita coisa das primeiras entrevistas que um estrangeiro dá no Brasil, especialmente por causa do português ruim. Sei de alguns poucos casos em que o estrangeiro conseguiu emprego logo de cara, mas isso aconteceu, em geral, por ser profissional de áreas que pouco importam se ele fala português ou não, como a área de TI/informática, em que se o sujeito tiver experiência e inglês fluente, mesmo com português ruim, estará dentro. Entretanto, casos como esses são minoria, a maioria vai ficar patinando de entrevista em entrevista até que o português melhore consideravelmente.

Se este post foi útil e esclarecedor, deixe seu comentário, curta e compartilhe! Obrigada!

Autor: manualquasepratico

Brasileira, casada com um estrangeiro, atualmente vivendo e blogando no Brasil.

2 comentários em “Primeiras Ligações para Entrevistas de Estrangeiros no Brasil”

  1. “..o recrutador estava mais interessado em matar a curiosidade fazendo perguntas sobre o país e a cultura dele do que qualquer outra coisa” Isso é praxe! Não aguento mais quando as pessoas desviam o assunto profissional para assuntos pessoais no intuito de matar a curiosidade. Eles não pensam que o marido precisa de emprego e não está ali pra contar historinhas..
    beijos!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s